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quinta-feira, 5 de março de 2015

Diário de valise - 12/07/2013

O Diário de valise é um projeto literário em andamento desde 2014. A ideia é contar a história de Monise através do exercício diarísco ficcional. Cada página vinha sendo publicada no blog de mesmo nome, mas para organizar meu trabalho em um lugar só, a partir de hoje, toda quinta-feira tem um episódio da vida da moça compartilhado com quem é leitor daqui. Vem, gente!



Diário de valise - 12/07/2013

Primeiros riscos nesse caderno cheirando a adolescência. Pensei que nunca mais fosse usar uma coisa dessas, mas é que ganhei da Lisi esse livro de registros em branco, com estampa animal print na capa, ontem, no meu aniversário de 25, com um cartão desaforado, bem a cara dela: “Duvido vc escrever da vida aí!”. A danada sabe que eu não aturo uma provocação. Provavelmente esse livro iria parar na gaveta da escrivaninha, mas fui desafiada, não resisti.



Tudo por causa daquela nossa conversa na casa da Marina, sobre primeiras vezes, quando eu disse que tinha metido meu diário na fogueira para não restarem provas dos meus anos de “vida loka”. Fiz churrasco das minhas páginas decoradas com mil corações, estrelinhas brilhantes e papel de bala, e, óbvio, antes de tudo virar brasa já estava arrependida. A gente não tem muita noção do que é viver fora do limite quando tem 17 anos e é fácil achar que um porre de Keep Cooler Black Morango, até hoje meu preferido, é o fim da reputação de uma “mocinha”, como dizia a velharada lá de casa.

Não é. Botei a minha honra à prova de maneiras inimagináveis depois disso, mas tomei o cuidado de não deixar pistas, nenhuma pegada para me pedirem explicações no futuro. Contei pedacinhos da minha vida para as amigas mais chegadas, para aquelas que também têm tanto rabo preso que não se importam com os meus fios de cabelo enroscados em maçaneta de porta. Já fui a destruição em pessoa, mas hoje sou inofensiva. Parei até de fumar. Minhas maiores revoluções eu faço em casa, trancada no meu quarto, com meia-dúzia de “bebidas de menina”, uns esmaltes vermelhos, e a câmera fotográfica.

Perdi a ousadia em algum lugar e nem sei se quero de volta. Talvez me seja melhor com esses modos, essa cautela disfarçada de recato, essa ressaca do tempo. Já ouvi reclamações de namorado e de amiga que eu andava chata, patrulhando, mesmo. Pode ser que eles tenham razão e eu realmente esteja meio neurótica com os excessos alheios, já que os meus nem deixo derramar. Nunca foi minha intenção reprimir ninguém, nada. Não é isso. É zelo, e um pouco de cansaço dos transbordamentos artificiais das pessoas. Eu sei que só o meu beiço de desagrado economiza qualquer comentário de vigilância da minha parte. Preciso aprender a camuflar o descontentamento e engolir meus resmungos. É um saco, mesmo, ter alguém sempre no pé reprovando suas atitudes. Acho que de tanto viver isso, acabei reproduzindo. Tá aí, encabeçando a lista de desejos para o ano novo: ser menos crica.

A Lisi é uma bandida. Não deixa escapar nenhum detalhe. Me aparece com esse tal livro de registros... Passei bem pelo Orkut, pelo Twitter e nem aos apelos do Facebook cedi. Havia prometido nunca mais manter diário para não permitir, outra vez, que palavras fossem testemunhas contra mim, para não carregar culpa pelo que está escrito, e olha eu aqui agora: escrevendo, que nem anos atrás, com caneta colorida, figurinhas e tudo. Vamos ver no que dá.

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