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10 de março de 2015

De quando desaconteci com Eliane Brum



Já torci muito o nariz para biografias. No tempo em que só me caía nas mãos biografias escritas daquele jeito quadrado, elogioso e chaaaaato. Depois, quando pude estudar e aprender um pouquinho sobre biografias, autobiografias, autoficção e afins tive acesso a textos preciosos sobre eus muito diferentes e interessantes. Não sei se foi o meu olho que se tornou mais sensível às histórias dos outros ou se ultimamente circulam livros mais verdadeiros e instigantes a respeito de pessoas. 

A vida dos outros me interessa. De qualquer maneira: relatada de memória (distante, recente, recuperada), inventada, reconstituída por terceiros, meio provada meio sugerida meio documentada, metaforizada, cuspida, até fofocada. Já entendi sobre minhas preferências de leitura que as histórias sobre gentes que mais me convencem e me seguram são as contadas pelas próprias protagonistas, em primeira pessoa. E isso independe de quem a pessoa seja na vida ordinária: se a criatura é atleta, cantora, deficiente, mulher, homem, criança, bandida, vítima, eu quero é saber como ela se diz ou como dizem dela. E o porquê.

Logo que larguei o Filho Eterno, do Tezza, peguei o Meus desacontecimentos, da Eliane Brum. Livrinho de tamanho justo para caber na bolsa sem fazer volume, despretensioso, nem fino nem grosso, a capa uma graça. Tenho um afeto gigante pelo trabalho da Eliane Brum jornalista e especialmente pela romancista, que me deu o presente de ler Uma/Duas (a história mais impactante que li nos últimos três anos), de modo que entrar nos desacontecimentos dela, para mim, não seria possível sem alta carga de expectativa positiva [acá eu errando de novo, indo cheia de ideias prontas para o texto da pessoa, doida para quebrar a minha cara de leitora]. 

Não li antes as orelhas nem a contracapa porque não queria ninguém influenciando a minha impressão de leitura. Dei de cara com uma epígrafe assim, uma frase simples que talvez sintetize a minha busca agoniada da vez, a que está movendo a pesquisa do doutorado e a minha vida de tododia, que hoje se resume a entender em que espaço caibo eu como mulher, adulta, artista, rio-grandina, etc, aquele blá-blá-blá de identidade:



O primeiro texto me diz o que a capa diria se eu tivesse olhado tudo com mais atenção e não corresse às páginas com tanta pressa: o livro tem uma proposta autobiográfica delicada e sincera, costurando episódios da vida da autora que a constituem - decisivamente - escritora, com o corpo todo no gesto de escrever. Para quem busca a linearidade típica das biografias até que encontra, mas é a relação profunda, de libertação, com a escrita que dá o fio da narrativa. São 143 páginas de uma vida que impressiona pelo que se revela por dentro, de íntimo, de indizível a não ser por escrito. O que importa sobre Eliane Brum e sobre o que ela diz de si mesma não é se teve mãe e pai e irmãos e tios e uma boa relação familiar no interior do Rio Grande do Sul, se foi bem sucedida profissionalmente, quantos livros publicou, quantos países visitou, não. O que importa é o como ela conta sobre o se importar, consigo e com o outro; sobre como o desconforto e o sentido de não-pertencimento fez com que fundasse na escrita um lugar para si. Mais: como fez da escrita o próprio corpo, território de estar em segurança, o lugar permitido para o desbordamento, para se ser, sem censura, sem shiiiii, sem interrupção, para se ser aos gritos ou em silêncio, quando bem entende. 

A naturalidade e a doçura dos relatos da Eliane me sacodem, porque ela tem a destreza de me narrar barbaridades como quem fala sobre jardins floridos. O texto dela me fisga porque me apresenta uma mulher inteira quando conta das suas fissuras e da única realidade possível para o existir: a condição da fratura permanente. Só dialogamos, via texto, quando concordamos que somos todas quebradas e que justamente aí mora nossa força. 

Achei na história de vida da Brum com as palavras uma porção de afinidades, temas que persigo, cenas tão familiares que poderiam ter sido protagonizadas por mim ou em que já me vi, em alguma medida: timidez, esquisitice, assombros sem explicação, somatização do incompreendido, rebeldias, questionamentos, índio, maternidade, criação, o jornalismo, o prazer da escritura, a vida na palavra. Levei três dias para terminar a leitura porque precisei interromper para dormir, para trabalhar e para comer. Se pudesse me dar ao desfrute, teria virado a madrugada naquelas páginas. Gente que se joga nas próprias palavras me captura sem esforço. A Eliane Brum que sinto nas reportagens jornalísticas, por trás do romance, dentro da autobiografia, é de uma complexidade tremenda, mas é a mesma sempre: de uma escrita honesta e brilhante. Dizem que a literatura não tem uma serventia, assim, da que cumpre expediente [não é para ser pedagógica, para ter uma missão] e se contenta com limite, mas este livro me ensinou coisas, colocou meu coração a andar de patins, limpou as lentes sujas dos meus óculos, aqueles que uso para me encontrar nesse mundo, mudou a mim de um jeito bom. Me desaconteceu para me colocar a acontecer outra vez. 

[E se pudesse, daria um abração bem apertado na Eliane, que já me sinto perto, cúmplice, depois de andar de braço enfiado ao longo de tantas páginas.]

  

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