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17 de dezembro de 2014

Rituais



Já vai terminar. O ano. Já vai. Não sei aí, mas o 2014 por aqui foi devastador. Coisa de ano par. Do desespero à euforia, teve de tudo ao extremo: amores, sucessos, imprevistos, lutos. E tudo doeu e fez rir do jeito que deveria: muito, muito mesmo, de molhar as mangas das blusas de tanto esfregar os olhos e secar lágrima. Ano par é oito ou oitocentos, o equilíbrio é nas pontas, e o bicho corcoveia e não se deixa domar. Daí que o ano que vem depois vai ser mais manso e preparar a gente para outro ciclo. De furacões. Assim a vida vai para quem precisa de símbolos e referências de se achar no tempo, para quem, feito eu, observa observa observa e guarda os pontos de impacto como marca. Se o ano fosse um mapa na parede o meu estaria crivado de alfinetes coloridos indicando lugares bem visitados. Check-ins em turbulência. 

Os dias que ainda faltam riscar na folhinha estão comprometidos e não é só com as festas de confraternização. Adoro os rituais coletivos dessa época, mas faço questão dos particulares, dos meus. Guardo sempre pelo menos uma semana para a faxina completa. Começo de fora para dentro e só paro quando sinto que o ar tem espaço livre para circular. Limpo a casa, os armários, as gavetas, as janelas, as frestas, separo o que não serve mais, rasgo papéis velhos, deleto arquivos do computador e substituo a imagem da área de trabalho, troco os móveis de lugar, mudo o cabelo, anoto desejos novos em lista e colo na porta da geladeira. Tiro um dia para ficar em silêncio, cortar lixar e pintar eu mesma as minhas unhas, tomar chá comendo devagarinho uns bombons preferidos, sem atender telefone, sem responder e-mail, sem passar pelas redes sociais, sem dizer ai. 

Nesses dias normalmente me pego ouvindo intuições. E gosto. E me deixo levar. É provável que eu compre flores para a sala. Amarelas. Que eu plante novas mudas de manjericão e de alecrim para presentear os amores e amigos. Que eu sinta vontade de acender incensos e os acenda, de fato, só para ver a fumacinha fazer desenhos no céu do meu quarto. Que eu cante várias vezes a mesma música da Mercedes Sosa – desculpem, vizinhos, é irresistível. Que eu agradeça, primeiro baixinho, que nem oração, e depois mais alto, mais alto, mais ainda, num tom que se escute lá na esquina, tudo de bom que essa vida me deu e tudo de difícil também. Lá pelo dia 29, é quase certo que eu queira caminhar de cabelo solto na ventania do Cassino e até pense em descalçar os chinelos. Que não contenha o impulso tremendo de entrar no mar, pé por pé, as mãos abertas cortando ondas. E depois sair da água com a alma vazia de sensações gastas, datadas e encerradas, sair lavada, sair outra, sair pronta, disposta a dar boas-vindas ao novo calendário. 

Antes de janeiro vai ter lentilha, uvas, calcinha amarela, vestido branco, folha de louro na carteira, coral familiar na garagem entoando o “adeus Ano-Velho, Feliz Ano-Novo”, explicações sobre ter engordado, sobre não ter engravidado, sobre não comer carne, abraços apertados, uns choros, vai ter o habitual, arejando e reacomodando as vibrações por repetição. Vai ter amor, reafirmado, autorizando o ano a nascer.       

Um comentário:

  1. Queria ter lido esse texto antes do ano novo, pra me inspirar. Não fiz faxina nenhuma, nem nada dos rituais de todo ano. =/

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