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3 de dezembro de 2014

Partidas



Faço trinta na próxima quarta-feira. Logo que o relógio marcar dez para as dez da manhã, no dia dez de dezembro, vou poder mostrar as mãos espalmadas três vezes quando me perguntarem a idade. Mas esse aniversário não é tão meu, embora eu me grude nisso dum jeito e desde setembro já comece a riscar datas na folhinha, a lembrar os amigos, a listar as mini e mega festas que pretendo fazer até o último mês do ano acabar, emendando tudo com Natal e Réveillon, mil pisca-piscas. É do meu pai, que me esperou e me guarda, mas é especialmente da minha mãe, que me quis desde semente e continua me querendo, apesar das distâncias, dos medos, dos fracassos, das ausências, das negações, do que esqueci e de tudo o que aprendi sozinha. Eu mudei essa mulher para sempre. Ela que, na sua vez, fez uma mulher virar outra, irreversível. A fiz mudar por dentro, por fora, por todos os lados.

Fui chegando e me espalhando em uma casa morna que tinha o meu formato certinho. Por causa minha ela se viu carregar pela primeira vez uma barriga-melancia impensável para seu metro e meio roubado. Saí rasgando e dolorindo, pela via natural, e esse meu processo de passagem do útero ao mundo a inundou de um afeto tão potente que não gasta: dura. Um apreço, um apego, um amor-desespero que é todo corpo, carne, pele e colo a qualquer momento, mas que só me vem. Não sai de mim da mesma maneira, na mesma medida, nem com o mesmo efeito. Para ninguém. É algo intuído, de ventre, de bruto, que não se ensina, apenas preenche. Ocitocina, pesquisei. Tem sintética até, mas as experimentadas na maternagem são unânimes em dizer: nem se compara. E só por alto se explica, meio assim como estou tentando agora.

Dentro de casa e com as janelas fechadas posso ouvir quando ela pensa em mim. Se nossos olhos fossem mesmo de ver ficaria evidente o fio luminoso que sai do meu umbigo, se estende aqui do Centro ao Cassino, e me amarra a ela, dispensando a decoração natalina da prefeitura. Preciso acreditar na materialidade da conexão que temos, do contrário não me recuperaria das saídas de casa, de cada zona confortável de me ser.

Nascer é difícil. É ir embora de alguém-casa. Aprender a ser um só, descolado, machuca de chorar no cantinho. Tem gente, feito eu, que passa a vida nascendo, pendurada na ponta do próprio cordão. Tem mulher, feito eu, que talvez não sirva para deixar nascer de si uma pessoa e só geste coisas, como ideias e vontades e conflitos. O primeiro parto nos partiu em duas, ela a metade maior onde a minha parte ainda cabe, porque faço força, por não querer partir. Repartir. Parir. Não que eu rejeite ser mãe: é que eu me prefiro filha.

7 comentários:

  1. Que coisa mais linda, Andréia. Que coisa mais linda.

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  2. Gosto muito do seu blog, sigo há algum tempo.

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    Um abraço.

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    1. Oi, Edu!
      Que bacana! Obrigada pela leitura aqui. :)

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  3. Amei tuas palavras , pensamentos , sentimentos , expressões. Parabéns1

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