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1 de outubro de 2014

Só por hoje, gentileza



Meu avó se curou do vício em bebida com a companhia dos alcoólicos anônimos. Quando nasci ele já não chegava perto de álcool há uns nove anos e quando no meio da minha infância consegui compreender essa parte da história ele já não frequentava mais as reuniões. Em alguma ocasião me mostrou plaquinhas plásticas que havia recebido lá no AA por estar x tempos sem beber. Na minha cabeça, o vô era um baita medalhista, colecionador de troféus coloridos. Se ele ainda fosse vivo, aposto que me daria colo como antes e entre um mate e outro me aconselharia a levar muito a sério o “Só por hoje”. 

Não bebo nada, mas tenho me ferrado com outras drogas socialmente aceitas. Não falo de cigarro ou remedinhos para dormir, minhas cachaças são outras e têm se misturado, efeito devastador. Não cabem todas na rotina e me atrapalho para acomodar os copos cheios e os vazios no meu balcão emocional. Lido muito mal com quem passa e quer levar minhas garrafas. Típico de viciado, minhas reações são desproporcionais, para o bom e para o ruim. Meu corpo paga. 

Dizem que pensamentos de raiva refletem raiva de volta, em onda, que repetir o ho’oponopono ajuda a sarar o caos pessoal, que desligar do problema faz o mundo girar melhor, que gentileza atrai caminhões de leveza para o expediente. Acredito em tudo o que me falam e gasto meu tempo tentando decifrar as conexões absurdas que a vida faz e acaba botando a gente em brete de onde só se sai abatida. Porque eu quero saídas, quero campo aberto. Não sei me conformar com a agonia que é ter cercas por todos os lados. Por enquanto é isso o que tem: limite para o querer. 

A alternativa é jogar para o tempo enquanto as coisas não são como eu gostaria, largar o chicote com que me açoito as costas todo dia e ser menos dura. Para ver se a vida volta a pegar leve e vai adiante, desamarra os nós cegos. Decidi investir na gentileza hoje. Distribui bom dias e sorrisos pela manhã, é fácil ser gentil com estranhos na rua. Manter a cortesia e o tom de voz baixo com quem te desrespeita é que são elas. E só por hoje eu consegui. 

Fui gentil a tarde inteira: fiz do melhor jeito que pude o que precisava ser feito, reguei as plantas da sala, não bufei ou quis ir embora antes da hora, fui paciente, grata, cordata, amável, quase outra eu. Era eu maratonista, que gentileza é um exercício, praticamente físico. Não emagrece de afinar a cintura, mas diminui a tonelada de ressentimento que se traz sobre os ombros. Na volta para casa me dei um carioca com empada de palmito de presente, da cafeteria que eu adoro. Comi devagarinho para adiar o final. Cuidei de me fazer um afago, saindo da dieta e desacelerando nos compromissos. Fiz questão de ser gentil comigo, radicalizar na ginástica. Pode ser que minha gentileza bem intencionada tenha se confundido com o prazer egoísta de esquentar o estômago, mas está valendo, só por hoje deu tudo certo. Amanhã tento de novo.

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