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quinta-feira, 9 de outubro de 2014

O sol que nos falta



Agradeço às redes sociais da web por me darem a temperatura mais aproximada de quem tenho sido, por configurarem mapas das minhas novidades, dos meus humores e das minhas sobras. E eu sobro para caramba, mas muito pouco assim, para todo mundo ver, ler, curtir, comentar e compartilhar. Ando naqueles lugares virtuais dividindo amenidades, recortes de rotina, referências do que acho bonito, escritos e vezenquando me metendo em polêmicas sobre cultura, política e bobagens de televisão. Quem nunca? O mais importante, o detalhe, guardo para o cara-a-cara e os abraços que vem depois. Do contrário, não há sobrevivência possível para gente de verdade, de pele, ossos e gorduras localizadas, todo mundo vira personagem.

Por lá, tem aumentado a minha fama de ser aquela que faz os amigos repararem no clima rio-grandino (amigos compreendidos naquele contexto, que te adicionam e acompanham, vice-versa, que nem sempre correspondem aos vínculos de todo dia). Normalmente cinza. Úmido, ventoso e nevoento: cinza. Um dia ensolarado para quatro de céu encoberto. Tem quem goste e se adapte. A mim atrapalha. Quase me manda embora esse tanto de cinza que esmaga a cor da rua e vai me contaminando por dentro. Sufoca. Afoga. Faz mofar. Mata a vontade de produzir o que quer que seja. Quando me sinto nublada até os cabelos volta ao meu ouvido a orientação dada aos descontentes por uma vereadora: “tá ruim te muda”. E imediatamente tento reverter a sensação e me colorir, porque quero ficar. Tentativas de ensolarar chegam perto de dar certo, mas não substituem um céu limpo para valer. O sol de papel que ganhei dia desses teve efeito por quase doze horas, de tanto afeto que tinha nos riscos laranja e amarelo de canetinha. Desde então, quando o quadro monocor que a janela mostra ameaça me oprimir, corro a timeline no celular e admiro um bocadinho a foto do desenho. Esquenta.

Já ouvi dizer, de gente muito convicta, que o pensamento é capaz de transformar as situações, o ambiente, as pessoas, a começar por elas mesmas. E se isso procede, a conexão a seguir me faz constatar que o nosso poder mental, dos rio-grandinos, é tremendo. Não é possível que estejamos dominando eventos climáticos, ou é? Tanta bruma dificulta até o raciocínio, tira a claridade da escrita. Refalo: queria dizer, desde o início, que repetir temas como o clima, no espaço vigiado dos facebooks da vida, tem menos de superficial que de subentendidos. Parece, mas não é, papo de elevador, de previsão do tempo, e importa. A gente é que, na pressa, não atina e trata o representado como extensão imediata e simples da vida real. É outra coisa.

Tenho aprendido a não ser implacável com as recorrências no virtual, porque elas não dizem o que gritam. O recado é mais sutil e está sempre dado. Meu desejo de verão eterno provavelmente equivale à enxurrada de fotos de gatos, a postagens de repulsa ao partido a, b ou c, às estantes recheadas de alta literatura, etc, cada um insiste no que lhe é ausência. Meus conterrâneos que me desculpem, mas sol em casa é fundamental. E é urgente falar do sol que nos falta.

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