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27 de setembro de 2014

Um dia no mundo

#27S15UB [para a Camila Doval]

Esse sábado, 27 de setembro de 2014, durou uns dois dias e meio. Começou não quando acordei, nem quando aproveitei o café ganhado na cama, nem quando fiz a mala correndo, nem. Meu 27 teve início no carro, logo depois de fazermos o retorno e parar na primeira sinaleira. Pouco mais de duas da tarde e fazia um sol escandaloso para Rio Grande, céu de nuvens arredondadas e brancas, quase deu pena pegar a estrada. Quando a gente sai de casa e pega o rumo da capital sempre precisa passar pelas capelas do cemitério. E sempre precisa tecer um ou dois comentários sobre o morto. Os meus são mais ou menos os mesmos e costumam ter a ver com a quantidade de pessoas no pátio do velório e com o clima. "Que terrível morrer num dia de sol assim". Se dessa vez eu não disse, pensei.

E depois, lá pela segunda sinaleira, achei lindo estar viva e partindo. Que partir, para mim, é difícil. Muito difícil. Parto em doses homeopáticas uma vez por semana, sozinha. E volto correndo, querendo mãe-pai-irmão-namorado. Desta vez estava acompanhada e levava promessas de riso, de passeio, de música boa, de estar-junto, de todas essas coisas miúdas que a rotina recorta e amassa e me tira. Foram quase cinco horas de chão até Porto Alegre. E de trilha sonora gritada, que no meio de Angras e Queens tinha um álbum do Roupa Nova infiltrado, especialmente por minha causa, e eu não resisto, jamais: "há tanto tempo que eu deixei você, fui chorando de saudade. Mesmo longe não me conformeeeeeeei". É tão bom não precisar me desculpar por dar show no carro. É tão bom ter GPS funcionando no celular. 

O Oswaldo Montenegro já cantava quando chegamos no teatro da Amrigs. Perdemos uma música e meia, ou só meia. Não fez diferença quando Lua e Flor me veio praticamente inteira instrumental. Que flauta destruidora aquela. Veio também a imagem do toca-discos na sala da casa onde morei, do LP com o rosto do Montenegro meio amarelado e cinza, a minha infância todinha no carpete. Eu secando com as costas das mãos a saudade-lágrimas de um tempo só meu. E do pai e da mãe. O 27 poderia terminar ali, logo depois de ouvir Metade, uma reza que tem tudo para ser a minha, de antes de dormir, mão com mão e olhos fechados, mas é cedo ainda para dormir e estou morrendo de fome. Aliás, estou sempre morrendo de fome. Na frente do hotel tem um restaurante bonito e aberto (de onde eu venho, depois das 23h não se encontra mais restaurante aberto) e é para lá que vamos. O sábado poderia terminar ali logo depois da sobremesa, mas eu tinha o compromisso de ir ao show do Angra no Opinião e não reclamar do calor, da lotação, da chuva, do meu metro e meio roubado que me atrapalha horrores nessas ocasiões e iria cumpri-lo. 

Cumpri. Do alto de um salto que salvou a minha visão. Não perdi nada para cabeça alguma e no fim ainda teve a la minuta no Cavanhas [sigo preferindo shows em teatro, volume mais baixo e doce de maçã com sorvete para arrematar]. Podia terminar ali o 27, mas para mim o dia só acaba quando a gente dorme e acorda na própria cama. Ainda tinha a volta para casa e o expediente. Então, voltamos pela mesma estrada, diminuindo a velocidade aqui e ali por causa das obras de duplicação [impressionante, o trajeto inteiro em obras!], recusando os paradouros para tentar chegar no horário no trabalho. Pulamos o almoço. Foi cada um para o seu lado. Já estamos em casa. Ainda não jantamos, ainda não dormimos, ainda não deixamos o sábado para trás: aposto que ele se deixou ficar pelos rifs do Kiko Loureiro [esse cara já foi do Dominó, descobri, muito espantada da vida], eu certamente me enrolei entre o "eu quero ser feliz agora", do Montenegro, e a última fatia do morango.


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