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9 de setembro de 2014

Gente que sobra


Foi na minha primeira formatura, ali logo depois da cerimônia terminar, que ouvi pela primeira vez a minha mãe se referir a mim daquela maneira, com aquelas palavras: "ela é muito intensa". Fiquei espantada, eu que até então havia sido criatura que não dava trabalho, não fedia nem cheirava, de repente fui definida como alguém que sentia demais. Ontem, pouco antes de me despedir da mãe, no fim do aniversário dela, ela me disse outra vez o que vem repetindo há nove anos: "tu é muito intensa". Na ficção isso é o tipo de descrição que intriga as pessoas sobre determinado personagem, mas na vida ordinária, essa de dia a dia, é uma bosta. De lá para cá, o que parecia ser um atributo bacana virou um saco de batata nas minhas costas (e uma justificativa para a filha que a minha mãe tem.).

Se naquele 23 de dezembro de 2005, véspera de Natal, eu magra e linda no palco do teatro Guarany divava me acabando em choro para todo mundo ver no telão hoje faço força para me conter e para manter uma figura capaz de conviver amigável e equilibradamente com as pessoas ao redor. Porque gente "muito intensa" sobra, tem um sem-fim de perebas do tipo aftas e úlceras, tem tudo a ver com gangorra, é propensa a compulsão (de toda forma, especialmente a alimentar), ganha rugas antes do tempo e cabelo branco, vira fogo de artifício com cada gol, parto, nota alta, férias, sonho realizado alheios, e morre um pouco com cada defunto. De longe não parece, mas não tenho meio-termo. Tenho metro e meio onde mal cabe tanta vontade. De viver, de morrer, de surtar, de mudar, de plantar, de pintar, de costurar, de comer, de correr, de fugir, de dirigir, de dormir, de atirar, de voar. Quem não tem vontades, né? O problema é não saber dobrar cada uma delas e acomodar nas devidas prateleiras dos humores. Vontade desajustada é sofrimento anunciado.

Por dentro sigo sendo esse caos e gasto quase toda a minha energia no exercício de dominar os sentidos. Porque tem dias em que eu muito compreendo aqueles sujeitos que entram nas escolas metralhando a esmo e tem outros em que me comovo com joaninhas no vidro do ônibus como se fosse um nascimento, uma aparição, um evento mágico. Não é possível viver numa TPM constante, "tu vais ter que aprender a dominar isso", a mãe me dizia ontem. Tá bem, eu vou, mãe. Só que eu acho que isso não é uma tarefa para a estação ou para o ano, tá com jeito de que vai ser a minha briga para sempre. Agora é que eu reparo o quanto sou dada aos dramas e me admiro do reservatório ilimitado de lágrima que eu tenho. Será que tem um ofício, uma profissão, um lugar adequado no mundo para quem sobra assim como eu? É que ficar eternamente se juntando - e se explicando e se escondendo dentro do casaco - pelo caminho dá um cansaço gigante e uma sensação de fracasso que às vezes não parece suportável.

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