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14 de março de 2014

Como letra


Se eu fosse um i, não teria um pingo apenas, mas vários e todos espalhados por aí, indecisos e sem grandes serventias. Dedicaria uma vida inteira de letra a perseguir o ponto que me falta no topo, sobre o pescoço, com um GPS agarrado à cintura e movido a energia solar. E cansaria, pois buscas infindas esgotam até as vogais mais determinadas, e perderia meus agudos sem poder olhar ao redor e pedir socorro, alento, colo, encontros vocálicos mergulhados em cerveja bem gelada e batata frita gordurenta. Se eu fosse um i, jamais me acostumaria a existir assim magrinho e sem adereços, e secaria cada vez mais, apesar de haver sol lá fora para ativar a alma livre que guardo em forma de fio de cabelo, dentro dos meus limites de traço a lápis ou caractere digital. Se eu fosse um i, inverno, inferno, ironia, insônia, insalubre, ilha, resistir Ia? Ia.

Mas não sou i e só tenho silêncios. Nenhum GPS, uma vaga lembrança de pingos. Esperança de domingos à noite, como agulhas espetadas sob as unhas. Acabou riso, voz, vontade, norte. Se eu fosse um i, nesse instante me passaria a borracha por cima, ou pressionaria a seta para a esquerda, e daria destino digno e indolor às palavras que nunca chegaram a ser. Nem os is merecem essa angústia de não ser substantivo, inteiro, urgente, já. O coração no estômago que não bate, arde úlcera onde jazem pingos caídos.

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