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sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Pelo buraco do alfinete


Câmara escura

Mil novecentos e sessenta e poucos:
Vazia, a lata metálica de achocolatado em pó tem inúmeras serventias. José Carlos aprendeu na aula de Educação Artística, no ginásio, que um dos usos possíveis para o recipiente é convertê-lo em câmera fotográfica, desde que conservada a tampa. Bastava ter à mão um prego, um pedaço de fita isolante, tinta preta para pintar o interior da lata, um cartão postal, alfinete, papel especial e paciência de captar imagens. O Zeca ficou impressionado com a ideia de gravar a vida com a luz do dia num pedaço de papel, sem precisar do aparelho, caro, de fotografar. Já imaginava a família reunida ao redor de dezenas de álbuns produzidos por ele, os retratos em preto e branco com molduras de madeira, lembranças artesanais congeladas nas paredes da casa, recordações de quem estava sendo. Para o futuro. Já tinha todo o necessário para dar conta da primeira etapa. Pensaria depois no momento da revelação.
Passou uma manhã empenhado em criar a própria pinhole. Esperou que secasse a tinta dentro da lata, fez com o prego um furo na frente, fixou um pedaço do cartão postal atrás do buraco recém aberto e com o alfinete fez novo orifício, mínimo, “por onde a luz vai passar”, disse alto. Trancou-se no armário das roupas para acomodar o papel especial na lata sem a interferência de nenhum facho de luz. A menor claridade poderia colocar em risco a operação. Com equipamento preparado, estava pronto para caçar a cena ideal, o instante perfeito, sua primeira fotografia.
Foi sozinho ao parque naquela tarde. Tinha até o final do sol para conseguir uma boa imagem, mas apenas uma tentativa. Não queria desperdiçar o trabalho com pombas vadias, que se moviam lentas atrás das migalhas de pão atiradas na calçada pelos velhinhos. Talvez os automóveis estacionados fossem um bom motivo. Ou aquela moça sentada no banco do outro lado do lago. Sim. Ela, sim, era o motivo perfeito.
A borda do chafariz serviu de apoio à lata, que Zeca acomodou com o lado do furo virado para o assunto fotográfico. Preparou tudo com extremos cuidado e discrição, para que a moça não percebesse e seguisse concentrada em seu livro, quase imóvel. Conforme o professor disse na aula, a imagem só se formaria direito com dez a sessenta segundos de luz atravessando o buraco do alfinete. Quanto mais tempo de exposição, mais chance de dar certo. Deixaria o buraco descoberto um minuto e meio, decidiu.
Um minuto e meio. Foi tempo suficiente para presenciar dois jovens correrem pela rua que passava atrás do banco da moça e serem cercados por quatro policiais montados em cavalos. Eles pararam, gritaram que eram estudantes indo para casa e só estudantes indo para casa, gritaram mais alto quando os cassetetes estouraram perto de suas costelas, ombros, pernas e cabeças. Eles não puderam mais ser vistos nem ouvidos quando o carro preto arrancou, seguido pelos cavalos. “Circulando! Circulando”, ordenaram os policiais sobre os bichos, “está tudo em ordem aqui!”.
Zeca esqueceu a moça quase imóvel que lia, sentada no banco do outro lado do lago. Tampou o buraco de alfinete com o dedo, como pôde, e correu para casa. Guardou a lata fotográfica no fundo do armário. Amanhã providencio a segunda parte do processo, peço dinheiro para o pai e compro um pouco de cada químico com o Seu Romão, o lambe-lambe do bairro. Amanhã, amanhã. Passaram-se dias, anos, e a cena gravada com a luz daquela tarde não ganhou revelação. Ficou no fundo do armário, no escuro, em necessário esquecimento.   

Negativo

Dois mil e primeiros dias:
Seria bem poético se os nossos heróis tivessem morrido de overdose, como anunciava o rapazinho aquele dos cachos, o Cazuza, logo depois dos tempos negros, mas a verdade é que os que não foram mortos nos porões da história crua se deixaram matar em troca da nossa fé. Deram de bandeja o pouco que tomamos para nós com muito grito, muito argumento, muito companheiro sumido e muita aposta em um projeto de sociedade baseado na equidade e no trabalhador organizado, dizendo a sua palavra, brigando para ser livre.
- Mas o senhor acompanhou aquele movimento que impulsionou a democratização. Somos livres e o país está crescendo, não?
Os heróis que a gente tinha, e que sobraram, hoje andam engravatados, de cabelos lambidos com gel ou de carecas lustrosas, vestem ternos de cores intensas e valem-se de maquiagem caprichada para destacar e suavizar os gestos na televisão, diante da opinião pública. Esses que estão aí em praticamente nada nos representam. A gente meio que perdeu a esperança, sabes?
- Não sei, não entendo. A mãe sempre diz que as coisas estão bem melhores do que na época dela, que agora há opções e mais conforto, e que deusulivre voltar ao tempo em que os preços no supermercado mudavam um monte de vezes por dia e o salário quase não dava para garantir a comida do mês. Eu pensei que a gente estivesse andando para frente, evoluindo.
Estamos andando. Em círculos, que nem cachorro atrás do próprio rabo. Permitindo que levem o nosso tempo e nos deixando levar pela coleira para onde esses porcos bem entendem. Fazem de nós gato e sapato e ainda vendem para os gringos a imagem de que estamos muito bem, obrigado, somos um país rico e decente. A mim não me enganam. Iludidos. Que falta faz o Brizola.
- Que porcos? Quem é Brizola, vô Zeca?
Ah, Vico, como é que tu não sabes quem foi o Brizola? O que é que te ensinam na escola, hein?! Taí um exemplo disso tudo que eu te disse. Se esse fosse um país sério, não negava sua história, não esquecia seus personagens colocando gente sem gabarito no lugar. Ou tu achas certo que no rádio, na tevê e no jornal se gaste tanto espaço com uma garotada de pouca roupa dançando esse tal do funk, mostrando as polpas a torto e a direito?
Nada contra a garotada, pelo contrário: eu apostei todas as minhas fichas no pessoal que veio depois de mim. Eu acreditava que seriam eles a fazer, de fato, a revolução nessa republiqueta. Nós, os da minha turma, entregamos a faca e o queijo nas mãos dos nossos filhos e eles não souberam fazer o sanduíche. Cresceram reclamando e exigindo a mortadela, a maionese e o escambau. Deu no que deu. A tua turma tem fome e nem sabe de quê.

Positivo

Dois mil e dez quase treze:
O que esperar de uma geração que tem os olhos cravados em minúsculas telas de LCD? São manadas de gentes que parecem ter nascido com aparelhos eletrônicos acoplados às mãos. Sujeitos incapazes de sustentar uma conversa por mais de cinco minutos sem desviar os olhos. Nós erramos com vocês, mas vocês fizeram pior com eles. Não fizeram nada! Ou fizeram tudo atravessado, filha.
- Pai, o senhor só pode estar caducando, tomou seus remedinhos hoje? Como pode me acusar pelas mazelas de um país inteiro, homem de deus? Meus filhos são íntegros, são inteligentes e educados, estudam, trabalham, têm a vida encaminhada. Não consigo ver onde está o meu, o nosso, erro.
O erro da minha geração foi ter depositado em vocês expectativas além do que poderiam dar conta. Se bem que, no meu entender, vocês pouco se lixaram para a causa. O Brasil é essa putaria, essa bandalheira, hoje porque vocês preferiram acreditar nesses partidinhos que nem sabem a que direção se filiam, relevaram os amadorismos e os desmandos dessa corja toda, se esconderam em cargos públicos, na segurança dos seus concursos federais, estaduais e municipais. Mas deixa eu te contar um segredo sobre esses babuínos: em todas as esferas públicas eles estão cagando e andando para vocês, para nós todos. Eles safam as férias deles em Cancún, exportam os filhos para os Estados Unidos ou para algum buraco chique da Europa, fazem mil plásticas, antes de fazer o trabalho para o qual foram eleitos e pelo qual são bem pagos. Se eu tivesse a tua idade, filha, eu botava meu bloco na rua de novo.
- Pai, bloco na rua é coisa de carnaval. A minha geração se civilizou e pensou na velhice, foi buscar qualificação profissional, estabilidade, bem-estar, a minha geração está cansada dessas cobranças. Avançou em relação a sua, que passou pela repressão com medo e teve baixa expressiva. Nós queremos ser felizes, é isso. Pensamos primeiro no sossego e na paz da família, não precisamos ter medo se levarmos nossas rotinas dentro da legalidade.
Ah, pensam. Sei bem no que é que vocês pensam. Vocês têm uma visão muito distorcida de legalidade. Não é porque o governo aprovou que uma lei será indiscutível. Se não tiver aceitação do coletivo, do povo, precisa ser revista, a qualquer momento, filha. Eu e a tua mãe não te criamos para a subserviência, o que foi que te aconteceu? Teus filhos são uns amores, mas sofrem da síndrome de ostra, estão sempre fechados em seus mundinhos, nas suas conchas. Pouco vejo se posicionando sobre qualquer assunto. Isso não é saudável. Não é. É um prato cheio para esses porcos comandarem. Ah, que saudade da tua mãe. E do Brizola.
- Não subestima os meninos, pai. O senhor entende os tempos de hoje com a lógica de, sei lá, quarenta anos atrás. As coisas mudaram. Ainda bem que mudaram. E cada um dos meus filhos tem o seu próprio jeito de se manifestar. Eles estão de olho, estão, sim. Eu - e a minha geração - posso ter me acomodado, me acovardado até, mas eles estão cheios de energia e com toda a nossa bagagem ao seu dispor. Não podemos ter feito tão mau trabalho. Confia, pai.
***
Neusa dá os toques finais ao assado que apronta para o almoço de aniversário do pai e os filhos chegam, com sua pressa e seus eletrônicos portáteis. Vico, o neto mais velho e mais afetuoso, abre o vinho do porto que havia guardado para essa ocasião e serve duas taças, uma para si e outra para o avô. Os dois, e suas taças, sentam na varanda para papear enquanto não são chamados à mesa. Vico tira da mochila uma câmera fotográfica profissional e uma bolsa de apetrechos: lentes, cabos, baterias, filtros, enquanto vai avisando que o presente vem depois, pois tem trabalhado tanto que nem deu tempo de comprar nada legal, o senhor merece mais do que meias, cuecas ou talco Alma de Flores. O avô fica impressionado com a parafernália e quer saber, saber, saber.
Vico, não tem nada que se incomodar com presente nenhum. Deixa ver, que troço interessante isso aí, rapaz. Deve ter custado uma fortuna. Mas me diz, como é que funciona? Não é de filme, é? Imagina, hoje em dia tudo é na base do computador e das internets, não deve dar trabalho nenhum.
- Não tem filme, não, vô. É uma máquina digital. Olha só que bonitas as fotos que eu fiz de vocês conversando? A mãe com a testa franzida, hehehe, que nem o senhor!
Tu sabes que na minha época de guri aprendi a fazer uma câmera fotográfica artesanal com latinhas de achocolatado? Era muito divertido construir a pinhole, me tomava uma manhã inteira, sem intervalo para café.
- Eu sei como funciona, vô. Estudei essa técnica na faculdade, vi imagens das pinholes, mas nunca vi uma ao vivo. O senhor tem alguma fotografia daquela época, de quando usava a latinha?
Na verdade, não. Só experimentei uma vez, com a primeira que fiz. Depois construí várias para os meus amigos, mas nunca mais quis fotografar desse jeito, artesanal. Acho bonito quem sabe mexer com isso, quem sabe usar, fazer as imagens aparecerem no papel especial. Dava um trabalho... Nem sei como é que se faz agora.
- E onde está a foto, vô? O senhor ainda tem?
Neusa interrompe a conversa e avisa que o almoço está servido.
A conversa de Zeca com o neto dá lugar a ruídos de talheres raspando no fundo dos pratos, a gargalhadas, a alguns resmungos e a planos familiares para o final de semana. Entre uma garfada e outra, Zeca sente saudade da época em que as pessoas eram mais professor Pardal e colocavam a mão na massa para dar chance às invenções. Agora tudo vem pronto e com prazo de validade curto, uma pena. Por isso que o mundo anda assim, praticamente perdido, considerava, antes de relembrar a vez em que tentou estrear sua pinhole no parque. O mesmo aperto no estômago, a cena vivinha na memória, como que se tivesse acontecido minutos atrás e não há décadas.

Revelação

Pela madrugada
Zeca troca a roupa do aniversário pelo pijama, estende o cobertor sobre a cama de solteiro, acenda a luz do abajur e desliga a estufa. Passou e muito da hora que costuma dormir. O sono já está lá, debruçado sobre as pálpebras.
O Vico se interessou pela minha foto. Eu nunca me interessei pela minha foto. Aliás, não me interessei em termos. Sempre guardei essa foto como possibilidade. Podia ter colocado fora, com lata e tudo para esquecer mesmo, mas não. Deixei no fundo do armário aquela vez e sempre que houve mudança – dos móveis, dos móveis de lugar, de casa – levei a lata e a minha foto inconclusa para novo canto em fundo de armário, perto. Acho tão bonito que o Vico goste de fotografar. Um dia ainda digo para o meu neto do homem criativo e íntegro e artista que ele se tornou, uma surpresa para mim, que achava que esse guri ia se perder para uma carreira qualquer de burocrata. Já faz tanto tempo que guardo essa lata, essa tarde, essa dor de calar, esse medo de ver, que talvez seja hora de dar a luz devida a esse recorte mínimo do tempo, do meu tempo. Será que ainda existe quem mexa com essas coisas?
Em casa, Vico fala com a namorada em alguma rede social na web antes de dormir. Conta do interesse do avô pela nova câmera fotográfica e da dificuldade para escolher um presente de aniversário legal para o velho. Ela sugere uma câmera fotográfica mais simples, já que o Zeca tinha curtido o equipamento, era uma coisa boa para ele se ocupar no jardim, fazer editoriais de moda com os passarinhos, hahahaha.
Sob as cobertas, Vico separava o deboche da sugestão da namorada e até que não achava má ideia. Se bem que uma câmera, mesmo uma mais simples, é sempre um chamarisco de vagabundos. Talvez um celular discreto, com wi-fi e boa resolução de imagem fosse tão interessante quanto útil. O avó poderia fotografar e, de quebra, ser encontrado com mais facilidade quando conversar fosse necessário. Boa. Amanhã mesmo compro um smartphone pra ele. Antes de pegar no sono, ficou pensando na história da pinhole. Daria um dedo para ter uma imagem dela nas mãos. Aposto que o vô tem algo guardado. Se tiver, vai ter que me mostrar.
***
Zeca acorda tarde e moído. É como se tivesse corrido maratona, como se nem tivesse passado a noite naquela cama, tapado até as orelhas. Sonhou com carros, tiros, escuridão, flashes, gritos e estalos, multidão, tudo muito vago, do jeito que são os sonhos. Se fosse supersticioso, diria que teve premonições e passaria a semana intrigado, procurando sinais de realização do mau presságio, mas como não era, levantou, vestiu-se e foi curar a dor nas costas com um café bem quente e pão torrado. Comeu lentamente, ruminando um pensamento: vou passar a lata adiante. Ao Vico. No começo da noite, quando Vico chegou à casa do avô, com um embrulho na mochila, encontrou outro embrulho sobre a mesa da cozinha.
- Oi, vô! Onde tu tá? Vô? Vim trazer o presente que fiquei devendo. Tem café nessa casa? Ô, vô!
Viiiiiico, que bom que tu veio aqui hoje, meu filho. Separei uma coisa pra ti. Tá aí em cima da mesa, ó. E aqui sempre tem café novinho. Passei não faz muito. Senta. Vou servir a gente.
- Mas antes, abre teu presente, velhinho. Quero só ver a tua cara quando desembrulhar o pacote!
Primeiro o café. Primeiro o café.
Um pouco de café e biscoitos com margarina antes de Zeca rasgar o papel colorido. Um telefone celular cheio de firulas, como costuma dizer. Estranhou, mas achou bonito. Pequeno e bonito.
Mas um telefone, Vico? Eu tenho esse aqui de casa – apontou para o aparelho instalado perto do sofá – e me comunico bem com ele, não precisavas te incomodar.
- Não é sóóó um telefone, vô. É um telefone celular com um monte de funções importantes, inclusive máquina fotográfica. Dá para usar em qualquer lugar. O senhor pode ligar para o meu telefone com ele, mas pode também fazer uma foto do seu jardim, por exemplo, e mandar para mim por e-mail, pode ainda publicar em uma rede social para todo mundo ver, e isso tudo com meia dúzia de cliques. Tri fácil e rápido.
Tu vais ter que me ensinar a fazer isso tudo. Só de pensar já fico cansado. Eu tô velho, mas aprendo ligeiro. Mostra como eu começo. Quero tirar uma foto do Brizoleto, aquele gato malandro. Deve tá dormindo do lado do fogão. Quer apostar? Ah, mas olha o que eu achei. É teu. Acho que guardei esse tempo todo só para isso, para te dar, que nem se faz com pulôver de Gramado, que a gente usa, usa, não se termina e acaba passando adiante por enjoar.
- Não me diz que é a... a lata vô!? A pinhole que o senhor falou outro dia? Mentiiiiira, velho!? Vais me dar, mesmo? Nossa... eu sempre quis ver uma de perto. A galera não vai acreditar quando contar. Quer dizer, vai acreditar, porque eu vou mostrar. Claro que vou. Como é que abre isso aqui, vô?
Cuidado! Tem a foto aí dentro, Vico. Nunca tirei. Precisas levar para revelar em algum lugar. Só tenho essa tentativa de foto aí, nem sei se ainda presta. Leva a lata toda, ou tira o papel especial daí de dentro quando tiveres em um lugar completamente escuro. Pode ser até aqui dentro do armário, queres? Mas eu não tenho um envelope que vede bem a luz. Leva com tudo, isso, assim. Leva.
- Vô, tu nem sabes como eu fiquei contente com isso aqui. É tipo um tesouro, uma herança de família, entende? Vou cuidar tri bem, fica sossegado.
Eu sei que está em boas mãos essa traquitana. Mas a foto, filho, se der, não mostra pra ninguém, não. Traz pra mim, pode ser?
- Pode, ué. O senhor que manda, vô.
Vico levou umas duas horas ensinando o avô a usar os recursos do smartphone. Zeca ficou especialmente seduzido pelo acesso à internet e pela qualidade das fotos. Era só tocar na telinha que a imagem ficava presa lá dentro do telefone. O primeiro compartilhamento foi para a Neusa, o Brizoleto em pose de bolinha praticamente embaixo do fogão. Vico criou o perfil @ZecaFotografando em uma rede social e explicou os caminhos das postagens ao velho. Era só clicar: clicar para capturar a imagem, clicar para escolher a melhor e clicar para postar, visível aos amigos.
Nos primeiros três dias, Zeca fotografou panelas, pia cheia de louça, prato de janta, fumacinha saindo do café na caneca, futebol na televisão, formigas sobre a mesa, o pé de funcho, a si mesmo decorado com espuma de barbear, a si mesmo em frente ao espelho, os próprios pés nos chinelos. Clicava, clicava e clicava, e ia deixando um rastro de rotina na rede social, os parentes comentando, gente estranha caprichando no RT, a hastag #VidadoZeca tão famosa quanto a #MudaBrasil.
Vico levou três dias para encontrar um laboratório que resolvesse o problema da pinhole. O laboratório levaria mais três dias para chamar o Vico e entregar o resultado, o achado no papel especial, como dizia o avô. Guardou o envelope pardo na mochila. Queria ver junto com Zeca a revelação. Enquanto isso, o neto se divertia com as postagens do @ZecaFotografando, havia criado um cibermonstro, ria.
Desde que o Zeca aprendeu a postar ele não se dedicou a outra coisa que não fosse fotografar e enviar as imagens para a rede, como o Vico disse para fazer. Esquecendo que a combinação tecnologia, internet e fotografia era algo hipnótica, Vico não alertou o avô para perceber o todo, para interagir, de fato, com as outras pessoas que respondiam às suas postagens. E meio que hipnotizado pelas novidades, o Zeca não reparou nas notícias compartilhadas nos últimos dias, não ouviu as conversas na rua, não leu jornais. Só viveu o presente recebido do neto.
Então, Zeca revisitou uma ideia antiga e não precisava depender do fim do sol para fazer acontecer. Sua nova lata de fotografar oferecia tentativas ilimitadas e até luz automática. Poderia captar imagens à noite, se quisesse. Poderia voltar ao parque, se quisesse. Poderia achar uma outra moça concentrada em ler um livro, se quisesse. E ele queria. Queria colocar uma lembrança nova no lugar daquela que vezenquando doía na boca do estômago. Foi com esse querer todo que o Zeca foi para a rua, para o parque, à noitinha, sem nem atentar para a mobilização popular que ocorria naquele momento não só ali, mas pelo país todo.
Assustado, mais pela presença da tropa de choque e de alguns policiais sobre cavalos do que pela quantidade de gente gritando “sem violência”, Zeca se pôs a fazer o que recém tinha aprendido. Fotografou e postou e fotografou e postou, pulando a etapa de escolher a boa imagem. Todos os registros eram bons. A hastag #VidadoZeca aumentava seu alcance e o @ZecaFotografando recebia mensagens de vários lugares, inclusive de perto. O Vico, acompanhando e estranhando o avô, pedia informações.
- Vô, onde é que o senhor tá? Tá perigoso isso aí! Vem para casa, velho. Disseram que a polícia tá baixando o cacete geral na galera, não quer nem saber quem tá pacífico ou quem tá na baderna. Não vão poupar ninguém. Diz onde tu tá que eu vou te pegar agora.
Zeca nem viu que seus cliques fotográficos interrompiam as chamadas do Vico para ele. Foram muitas. Lá pelas tantas escutou algo como: baixa essa merda, não tem que filmar a gente, não, cambada. Larga, senão já viu. Mas Zeca não atinava ainda a fotografar, postar e acompanhar o mundo ao redor, assim, tudo ao mesmo tempo. E, por isso, seguiu clicando. O último envio foi a cena de uma jovem levando spray de pimenta no rosto. O jato vindo de cima do cavalo.  De onde também veio o chute certeiro no aparelho, que voou para o meio da multidão. Os dedos do Zeca ficaram esfolados. Quis gritar uns palavrões, mas achou melhor voltar para casa. Naquele dia não tinha moça quase imóvel concentrada em ler, só a polícia e os cavalos e os estudantes. E uma chuva começando.
Na rua, em algum ponto da manifestação Vico tentava identificar o lugar das imagens do @ZecaFotografando. Quando percebeu que há mais de vinte minutos não havia atualização do perfil, o neto apertou as alças da mochila embaixo dos braços e rumou para casa do avô.
- Tomara que ele esteja seguro, caramba.

Molduras
Tarde de uma noite longa embalada a café

Zeca abre a porta da entrada e ganha um abraço apertado do neto.
- Que bom que tu tá em casa, vô. Baita susto. Achei que não tinhas saído do meio do povão. Tava fazendo o que lá, me diz? Protestando também? Que o senhor apoiava uma reivindicação eu sabia, mas que tava dentro do movimento é novidade pra mim.
Eu não sei de movimento. Eu fui lá pra. Pra repetir a minha foto que não deu certo, a da pinhole. Não queria ter que esperar até amanhã para fazer isso enquanto tivesse sol, já que o telefone tinha luz automática e. Quando me dei conta tava no meio da confusão. Fotografei que nem doido, um clique atrás do outro. Eu precisava, sabes? Garantir e mostrar a minha foto. É que daquela vez, quando eles vieram, eu senti um pavor tão grande que nunca tive coragem de ver o que ficou gravado dentro da lata. Fui cagão e achei que agora podia ser a chance de limpar meus fundilhos.
- Eles quem, vô. De quem o senhor tá falando, afinal?
Eles, os repressores, a cavalaria, essa escumalha. Estavam lá hoje, em número bem maior, mas eram os mesmíssimos daquela vez, no parque. Berrando, como se a gente fosse um bando de surdos. E não era o caso só de refazer a minha foto, eu precisava que eles me vissem de novo e soubessem que não me acovardaria outra vez. Me viram. E viram o que eu estava fazendo. E chutaram o telefone das minhas mãos. Perdi o presente que tu me deu, Vico. Desculpa o vô.
- Quê, eles te bateram, vô?! Não acredito, são uns porcos! Esquece o telefone, o que importa é o senhor tá bem. O senhor tá bem?
Eu tô bem. Eu consegui, acho. Não repeti exatamente a minha foto, mas botei várias outras no mundo. Compensei anos nessa aventura, tu não imaginas o que isso significa, Vico. Troquei uma imagem por um montão delas. Podes ter orgulho do teu avô agora.
- Sempre tive, velho. Sempre tive.
Toma um café comigo, então, guri.
Zeca serve duas xícaras, espalha bolachas de maisena em um prato e senta com o neto ao redor da mesa da cozinha. Vico lembra do envelope pardo na mochila, abre o zíper, enfia a mão e puxa para perto do pires. É o momento certo.
- Toma, vô. A tua foto. Eu consegui a revelação.
Tu viu? Ficou boa?
- Não vi, não. Queria olhar junto contigo. É a tua vida aí, né?
O papel especial fora do envelope trazia borrões em escala de cinza. A silhueta que parecia de mulher sentada, em primeiro plano, dois vultos claros ao fundo, duas manchas escuras, talvez mais, uma cabeça desfocada, a crina escura de cavalo saindo da foto era o elemento mais nítido.
E ainda dizem que a vida não se repete, filho. Quanta bobagem. Pode não sair assim, tal e qual ao que já foi, mas a coisa toda é a mesma, o mesmo jogo, a mesma tensão entre quem manda e quem obedece.
- O senhor acha que tá melhor agora, vô? Que o povo tá acordando e cobrando o que é seu de direito?

Melhor? Não sei. Não sei onde isso vai parar. Mas escreve o que eu vou te dizer: agora tem mais luz chegando no assunto. Acho que o buraco do alfinete alargou. 

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