Páginas

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

O dia em que o De solas figurou no blog mais ácido da praça



Foi no fim do dia de Natal que o Eduardo Bozzetti, autor do autêntico e polêmico blog Gostas de Ácido, postou por lá o meu conto Pelo buraco do alfinete, anunciando o fechamento das atividades em 2013. Esse período de fim de ano, fim de ciclo, pede um descanso até para as vozes que parecem ter energia interminável. O Bozz vai fazer recesso da blogosfera (ou não...) para voltar com todo o gás no ano que vem, com fala afiada e olhos bem abertos principalmente em direção à prefeitura, que teve um ano para mostrar serviço e, bem. A gente que vive Rio Grande sabe. 

Mas era da minha figuração no famoso blog que eu estava falando: fiquei contente de colaborar naquele espaço com algo tão meu, tão significativo para mim, um texto fictício tão inspirado em referências do mundo virtual e de um ano que teve tudo para ser aflito e desolador, e que, afinal, foi de superações, de demonstrações inegáveis de força e de reconhecimento ao nosso poder dizer. Dissemos muitas coisas nesse ano que já vai. Aqui do meu lado, disse verdades travestidas de invenção e disse invenções que foram tomadas por verdades, me aperfeiçoei um pouco - parece - no jogo de fabular. 

Em Pelo buraco do alfinete atendi a uma proposta da pós-graduação, aquele meu curso de doutorado, sonho que 2013 me deu, trabalhando com os princípios da fotografia em uma narrativa. Escrevi no final de junho, com pouco tempo para finalizar e submeter à avaliação final da disciplina, e absolutamente influenciada pela "onda de protestos que tomou conta do Brasil" - para repetir um dos coros que a tevê tanto usou na época. Foi um momento de susto, de confusão e de euforia para mim. Não sabia exatamente o que pensar e como me posicionar a respeito, mas não conseguia evitar a hipnose das imagens das vias do país tomadas de gente, chamando "vem pra rua". Fiquei mais de uma vez presa na estrada entre Rio Grande e Porto Alegre por isso. Tive medo de ficar trancada na PUCRS e não conseguir chegar ao lugar onde me hospedava mais de uma vez. Me senti reacionária, me senti culpada. Quis ir pra rua, mas não fui por estar em ruas estranhas, longe de casa, quis a minha mãe e o meu pai, quis muito compreender e participar. 

Foi um tempo estranho em que as redes sociais me absorveram. Enquanto o Naldo estava no programa da Fátima Bernardes entre um alto-em cima-axila e entradas ao vivo dos estragos do centro de Porto Alegre, o Facebook fervia de indignação, solidariedade, apelo. Uma das minhas fontes de informação mais críveis foi o Gotas de Ácido, o Bozzetti, que mais de uma vez se posicionou no front das manifestações com máquina fotográfica, apetrechos e amigos interessados em testemunhar e reportar o que estava acontecendo em Rio Grande, sem perder de vista o resto do país. Foi mídia alternativa, independente, de qualidade e de coragem pela palavra. Fez melhor e com mais verdade do que muito meio de comunicação tradicional. Não chamou ninguém de vândalo ou de baderneiro, fez questão de ouvir o lado manifestante e o poder público e outros lados que se apresentavam naquele murundum de gente querendo exercer seu poder de dizer. Me representou em vários momentos e de diversas formas.

Embora não tenha ido para a rua, sinto que a efervescência dos meses de junho a início de setembro não me foi indiferente. Pelo buraco do alfinete é um jeito de expressar o lugar que ocupei e ocupo nessa nossa história de construção identitária e sobretudo política de nação, que nos exige entendimento amplo do global ao local, coisa que nunca é simples nem definitiva. Pelo buraco do alfinete é, também, uma homenagem às minhas referências mais recentes de luta, de empoderamento e valorização do estar no mundo. 

No final de junho fazia pouco que o Bozzetti havia perdido o pai, o seu Dramaturgo Pedro Bozzetti, e naturalmente mencionava o que ele, o pai, diria se presenciasse o que estávamos vendo. Foram muitos comentários, postagens e textos opinativos trazendo fragmentos que, de longe, ajudavam a compor a imagem de um homem que viveu tanto. Lá pelo meio da minha história em Pelo buraco do alfinete, senti falta de alguém com a força que o seu Pedro parecia ter tido, precisei de um personagem que amarrasse o fio do tempo com um posicionamento bem marcado e um vocabulário muito próprio. Tomei emprestadas as referências que o Bozzetti oferecia sem pedir licença, mas com profundo respeito. Fechei o conto, mandei ao professor, recebi 10 com estrelinhas e um recado por email que me dizia "Excelente". E foi só em novembro que eu mostrei o texto ao filho do seu Pedro. Foi como dizer o que eu não disse com todas as letras: olha, eu também compartilhei esse ano maluco com o país e com a cidade, admiro o trabalho que tens feito como mídia independente e a devoção à história do teu pai. Eu não disse, mas o texto se diz, eu acho. Tanto se diz que ganhou uma postagem no Gotas.

A escrita para mim é algo extremamente importante, é meu melhor instrumento do poder dizer, é meu lugar de liberdade, é provavelmente a casa onde mais habito. Não sai palavra por escrito de mim que não tenha valor íntimo, que não seja ouro ou herança pessoal, que não mereça a minha fé. É a arte em que acredito e que me acolhe a qualquer tempo, é o que tenho de mais bonito a compartilhar porque é a minha verdade, é o meu raro. Saber que alguém lê o que escrevo me enche de esperança, pois me devolve expressão, me reconhece, me acena que sim, que me fiz entender de um jeito bom, que comuniquei e fiz valer, ainda que de forma torta, o meu fazer profissional. Foi um tremendo presente de Natal, Bozzetti. Vou sempre ser grata! :)  

Nenhum comentário:

Postar um comentário