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30 de dezembro de 2013

2013 em uma página de diário

Nada como olhar para trás com calma para perceber o tanto que se andou, o tanto que se aprendeu, o tanto que se perdeu, e o tanto, tanto, tanto que se cresceu na marra nos últimos meses. Pensei em listar meus momentos significativos de 2013, para poder olhar de novo no ano que vem ou num futuro qualquer, mas daí achei um exercício de diário, que fiz para o doutorado (esse curso tem me feito viver fundo pela escrita) e que pretendia nunca publicar em nenhum lugar de tão íntimo que me saiu na época. Era para contar um dia da vida da gente como se fosse um diário particular, secreto, bem tradicional e eu, bem mandada, me joguei. Hoje, último dia deste ano dolorido e incrível e montanha russa, releio já sem o medo de ser descoberta pela palavra, sensação própria do diarismo. Releio uma página de verdades só minhas, releio uma pessoa fazendo slackline descalça em fio de alta tensão, releio uma eu distante e ao mesmo tempo encolhidinha aqui do lado, imóvel, uma eu que não faz mais força pelo equilíbrio. A eu que relê aquela página de diário é alguém que olha para frente e espera e se diz: tudo bem. Vai ficar tudo bem. E vai. Já está ficando. Pronto.

Cidade do cinza, 11 de setembro de 2013.
Foi quente hoje aqui na cidade do cinza. Quando tem sol assim é melhor andar na rua e aproveitar para tirar o mofo da alma, pois provavelmente venham pela frente uns seis dias de nuvem e frio, coisa de começo de setembro. Passei a tarde jogada no sofá com ele, perguntando se queria uma fruta, um café, um copo d’água, se tinha dor, frio, calor, sono, vontade de sair. Tão bom. Tão bom ficar perto assim de novo, tão bom como quando a gente brincava dentro da caixa de papelão e os meus cabelos eram uns cachos espalhados para todos os lados, e tinha aquele papagaio barulhento na área, e a minha boneca Pati, e a fita K7 do Kid Abelha e os Abóboras Selvagens tocando enquanto a mãe estava na faculdade. Fez 23 dias hoje. Deve fazer uns 25, 28, um pouco mais, sei lá, que eu só produzo bilhetes de geladeira para a minha mãe ou para o meu irmão. Ou para mim. As anotações para mim são breves, simples, repetidas, duas palavras (uma palavra, dois sinais de pontuação e um desenho infantil, vá lá.) que mudam de lugar no papel, mas não mudam de significado, uma sentença que é mais um urro do que recado:



É tão desesperador ver o pai da gente assustado, calado, encolhido na cadeira, completamente depilado, com jeito de boi que intui a hora do abate, e não poder fazer nada a não ser ter fé em uma junta de desconhecidos, nos médicos. Eu tive fé. Era preciso ter e eu tive, sei lá de onde veio. Se eu pudesse, metia a mão entre as minhas costelas e tirava o meu coração para trocar pelo dele com defeito. E sobre isso falo muito sério. Foi a primeira vez que senti um medo tão fundo de ficar sem ele. Na carona desse medo novo voltaram os antigos, com força total, e foi a primeira vez que me vi obrigada a segurar nos dentes meus pavores, um por um, sem comentar com ninguém. Não era justo – e agora quase um mês depois, apesar do alívio, ainda não o é – que a mãe e o mano, fragilizados no meio do caos, tivessem também que acudir a mim. Sobrevivi. Sobrevivemos. Mas desconfio que venho morrendo um tanto de lá para cá.
Tem gente que recebe dinheiro, imóveis, joias de família, álbuns de fotografias, cartas e escrituras de herança. Vou herdar cardiopatia, me avisaram, além de aftas, propensão a problemas gástricos, e estrias nas coxas logo abaixo do quadril, tudo já manifestado nesse corpo miúdo. Olho azul? Coluna ereta? Pulmões fortes? Bem capaz.   Hereditariedade é uma merda. Uma merda. Tenho consulta marcada no cardiologista semana que vem. No último fim de semana fui parar na emergência do convênio, suando frio, cagada de medo, com uma dor no peito de três dias que só aumentava. Não tens nada, me disse o médico, antes e depois do eletrocardiograma, é só estresse, uma briga com o namorado, coisa assim. Voltei para casa com a minha dor e um anti-inflamatório prescrito.
As vezes fico agoniada e o desconforto perto do mamilo esquerdo reaparece, tipo pisca-alerta. Daí eu fico bem quieta, me concentro no ar que entra e que sai pelo nariz, tento ignorar que o banheiro da minha casa está parecendo de praça pública, que tenho uma fila de livros para ler para ontem, que o meu curso em Porto Alegre vai rolando e eu mal consigo estar de corpo presente nas aulas (que dirá de mente), que o salário do meu pai não virá enquanto ele não retornar ao trabalho, que o apartamento deles esteve à venda por quase dois anos em vão e que justo agora, que o pai precisa de repouso e sossego, apareceu comprador para fechar negócio e o cara tem pressa. Que le-gal! Temos um mês para encontrar, comprar e mudar de mala e cuia para um outro apartamento. Comemorei com a família o sucesso cirúrgico e de recuperação do pai e a boa notícia da imobiliária, mas por várias vezes no caminho do hospital até em casa chorei que nem criança pisada, no vento e na chuva, de madrugada na Presidente Vargas (que pelo menos para a gente choramingar em paz e sem pudor o clima dessa cidade em agosto é providencial).
Tenho acordado com vontade de encarnar o Forrest Gump e correr correr correr correr. Não moro com meus pais há mais de um ano e só agora, com essa loucura toda, percebi qual é a crise, afinal: a casa que eles vão vender. Ainda estou lá, ainda tem espaço para mim no quarto do fundo, na mesa da cozinha apertada, no sofá para quatro. Agora tenho um pai-bebê, novo em folha. A mãe e o mano vão nessa onda com ele, e ir para uma casa nova é materializar toda a mudança. Estão decididos a renascer, mas – não é lógico, eu sei – para que consigam eu preciso partir. E, caramba, dói o coração constatar e assumir isso.     



2 comentários:

  1. Talvez seja sábio, depois que elas passam, agradecermos às dificuldades que enfrentamos por elas tão bem nos mostrarem o quanto afinal somos fortes...
    GK

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  2. Andréia assim não vale. Me fez chorar, chorar mesmo... Mesmo conhecendo parte da história me emocionei. Beijo na menina e na mulher Andréia!!!!!

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