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15 de setembro de 2013

Pixação ou pichação: na pele da cidade

Uma lixeira da praça Tamandaré.

Quem acompanha  alguma coisa da Cidade do Cinza pelos blogs especializados em informação, os chamados "mídia alternativa" (Tuco Tuco, Gotas de Ácido, Olhar da Rua, entre outros, ainda bem), e/ou pelos meios de comunicação convencionais locais está careca de saber que Rio Grande é mestre em autopix(ch)ação. Sozinha, com suas esferas de gestão (e com a ajudinha de habitantes que não estão nem aí para o pastel), a cidade consegue se sabotar, escancarando seu talento para o amadorismo, para o mal gosto e para a política do "assim tá bom".

Estou generalizando? Tem muita gente interessada em um desenvolvimento saudável (para muuuuuito além da sustentabilidade, uma cidade que se paute pela educação, pela arte, pela saúde, que queira, de fato, desenvolvimento cultural em nível de consciência e não de números de plataformas construídas e de empregos gerados pelo polo naval)? Sim e óbvio. Conheço pessoalmente mais de meia dúzia que não só sonha como trabalha firme para que a cidade melhore para todos que vivem por aqui.

Mas e daí? Daí que fui dar uma caminhada na rua ontem, sábado à tarde, e fiquei me perguntando que tanto a paisagem urbana tem me incomodado ultimamente. Reparei bem nas fachadas das lojas, nos muros, nas paradas de ônibus na volta da Tamandaré e me caiu a ficha: além da cidade ter o azar dos dias predominantemente nublados, com raro sol, agora conta também com rabiscos pavorosos por todos os lados. É olhar e perceber. E tirar suas conclusões.

Eu sei que há uma discussão - bem interessante, por sinal - sobre pixação/pichação enquanto expressão de arte, com seus protocolos, suas propostas e seus limites. Vale o estudo rápido pelo Google, se for caso de emergência. Mas, fiquei pensando em como essa riscalhada pela cidade, que aparentemente não tem uma lógica, um compromisso com determinada causa ou projeto estético, me fez sentir: agredida. Não sinto a menor identificação com ou empatia por esse tipo de coisa, essa rebeldia esvaziada. Não é o dono da loja quem vai limpar a sujeira no outro dia, é o empregado, o peão, eu.

No meu trabalho, quando há pixação/pichação simbólica, moral - essa a que estamos mais acostumados: a das palavras de baixo calão, dos joguinhos de poder, do toma lá-dá cá de quem se julga no direito de oprimir - quem tem que limpar a imundície sou eu-profissional, mediando diálogos, tratando a informação de forma que os fatos sejam reportados sem que as pessoas autoras do spray e as atingidas não se exponham além do necessário. Sou praticamente eu ali na porta da loja de sapatos com balde e clorofina no dia seguinte tentando limpar marcas que não vão sair facilmente da pele da cidade. Não posso achar bacana ou ver sentido nesse tipo de coisa. Mas quem sou eu na ordem do dia para achar alguma coisa, não é mesmo? Se qualquer pessoa alfabetizada e com um celular (ou um spray) na mão pode fazer o que eu faço.

Minha pergunta é: o que tu, que perdeu minutos valiosos me lendo aqui, achas sobre isso? Antes de responder - mentalmente ou nos comentários - espia mais algumas fotos de ontem e uma foto que eu peguei emprestada do Leandro Kerr, no Facebook, sobre essa reflexão:

Foto do Leandro Kerr. Nem o cachorro da Tamandaré escapou.

Autógrafos nas paradas de ônibus que nos custaram os olhos da cara.

A escola pode ser um bom lugar para o Vitão ter espaço de expressão. 

Nojo de sentar aí para esperar o ônibus. 

Oi?

Parada do ônibus na Luis Loréa, praça Tamandaré.

Banco do Largo Dr. Pio.

O Brasil Acordou. Mal educado.

Cuidado, tinta fresca. Loja do calçadão.

San Marino, a rota do Gunif.

Casa ao lado da Câmara de Vereadores. 

Livraria, com o mais novo recadinho na fachada. 

4 comentários:

  1. http://www.youtube.com/watch?v=fiURAVfZoQI

    um doc esclarecedor. sem demagogias higienizadoras!!!!!!

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  2. Preciso de mais informação. Não sou reaça (tô em dúvida sobre isso também, o tempo todo. Acho que se o objetivo da pix(ch)ação era esse, atingiu), mas não concordo que só "os engravatados" têm lugar de expressão. Há alternativas para a gente se expressar, inclusive usando muros e sprays, e se fazer entender, sem agressão pela agressão. Pixar cachorro?! Não entendo. Não entendo.

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  3. Concordo, há muitas formas legítimas e acessíveis a todos para se expressar. E pix(ch)ação não é uma delas. Como a autora notou, se há alguma mensagem nessas pix(...enfim... Se há alguma mensagem, está criptografada. Dito isso... Tão ruim quanto as pichações são os outdoors de estragam a paisagem das estradas e a paisagem urbana. E quase tão ruim são aqueles folders que empurram para as nossas mãos, com anúncios que geralmente não são lidos pois, de modo geral, oferecem produtos que não interessam. E pior que as pichações, os outdoors e os folders é a maldita propaganda sonora. Isso sim é um crime, pois é tão invasivo que não temos nem como evitar, seja quando estamos caminhando nas ruas, ou em casa, ou no trabalho.

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