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6 de julho de 2013

Post especial - Sulfite e Cartolina






Dando continuidade à série de postagens especiais para comemorar o aniversário do De solas e asas, o conto Sulfite e Cartolina, um dos que eu mais gosto do livro. Bem cor de rosa, por cima. :)

Sulfite e Cartolina

Era uma vez um castelo de papelão, habitado por uma corte de lego, rei vermelho, rainha azul, súditos de peças de três pinos e seis encaixes, cercado por um povoado de tampinhas de garrafa, pobres moradores de plástico e metal. Na torre mais alta do castelo vivia confinada uma princesa de papel sulfite, que olhava a vastidão do reino através de uma pequena janela recortada com tesoura sem ponta e envidraçada com celofane amarelo. De vez em quando uma ama de plástico-bolha aparecia e trocava, junto com os lençóis de papel de seda, o celofane desbotado por um novo de outra cor.

Haviam dito muitas vezes a essa princesa que vida de nobreza é uma barbada, que a de princesa na torre, então, é chuva de purpurina, que depois de alguns anos, de tranças feitas e desfeitas, de lágrimas que adormecem e despertam, de rosas que perdem as pétalas e de feras que se transformam nas almas mais puras do universo lilás, sempre aparece um cavalheiro disposto a levar a moça da torre para outro castelo fincado num reino tão-tão-distante, onde ela poderá engravidar muitas vezes, e tricotar até acabarem-se os fios de lã.

No fundo, mas bem no fundinho, brotava na princesa de papel sulfite uma dúvida pequenina e insistente, um buraquinho de traça no meio do livro velho, ela não sabia se gostava da ideia de esperar, engravidar, envelhecer e tricotar, ou se preferia saltar pela janela e sair sem rumo reino adiante, a descobrir o que havia do lado de lá do riacho que a janela enquadrava.

O tempo passava e passava e a dúvida crescia e crescia e a princesa de papel sulfite percebia que estava perdendo o controle de si, que sua ansiedade e impaciência estavam causando rasgos e fissuras na própria pele de papel, o que naturalmente doía. Da dor sabia que não gostava. A dor insistente indicava que seria preciso fazer alguma coisa, tomar providências, decidir. Mas como? Como resolver ir ou permanecer, aceitar ou recusar, abrir a porta ou trancar, se havia passado a vida aprendendo a andar no meio-fio, entre o dentro e o fora, entre ser e não ser?

Ao reconhecer um momento definitivo, desses que não se pode voltar atrás (e não seriam assim todos os instantes?), a princesa de papel sulfite experimentou profundo desalento: por dentro havia algo tão dolorido crescendo e pedindo passagem, vazão, que a moça desistiu de suportar e chorou. Chorar quase sempre é uma coisa boa, limpa os olhos e afrouxa o que tem dentro do nariz e do peito, o alívio sai no papel higiênico. Mas no caso da princesa era grave. Era praticamente suicídio.

Pela fresta da janela espiava uma luzinha laranja, que passou ao lado de dentro da torre quando a princesa de papel sulfite começava a se amolecer em lágrimas. Diante da moça surgiu uma mulher de cartolina ruiva, segura e sorridente. Vestia um sobretudo laranja de papel crepom, jeans claro justíssimo e calçava botas de massa de modelar, que a princesa de sulfite jamais havia visto. Reconhece o tipo? Fadas madrinhas são sempre providenciais.

Antes que a princesa lançasse qualquer pergunta, a fada foi logo tirando de dentro da bolsa canetinhas, giz de cera, cola bastão e estilete. Disse um "vem cá" enérgico e incontestável e em dois tempos a princesa estava, amarrotada, diante do espelho. A fada dispôs os apetrechos diante da moça e ficou ali, de braços cruzados, "tudo contigo. Não era disso que precisavas, fazer escolhas? Começa escolhendo a ti e as tuas cores. Não parece razoável?"

Parecia. Logo a princesa desvestiu o vestido de sulfite branco, esticou-o no chão da torre e dele recortou uma minissaia rendada, uma bermuda, um colete e um top franzido. Desenhou riscas, bolinhas, pedrarias, zíperes, flores coloridas e botões de madrepérola. Recebeu da fada poucos de massa de modelar e fez as próprias botas e com as sobras um par de scarpins dourados, capazes de devolverem-lhe ao lar. Combinou as botas novas com a minissaia e o colete, guardou o resto na bolsa da amiga e sorriu.

A princesa já havia recobrado bom humor e esperança no futuro quando a fada puxou da bolsa uma chave de plástico. Entregou-a à princesa, que já sabia o que fazer: abriu a porta da torre, por onde saíram as duas de mãos dadas e às gargalhadas. Os empregados tentaram interpelar as moças, queriam saber para onde iam, mas elas deixaram a eles apenas vento.

Fora do castelo, à beira do riacho de lantejoulas, a fada perguntou se a princesa sabia nadar. Não sabia. "Sabes voar?", tentou novamente. Não sabia. A fada, então, recortou um par de asas em papel de chiclete e colou nas costas da companheira. Atravessaram a água aos voos e riram muito deitadas na grama, ao aterrissarem na outra margem.

"Estou feliz, fada. Obrigada. Estou leve", iniciou a princesa, numa conversa necessária. Deitadas lado a lado, as moças ficaram muito tempo olhando fundo uma nos olhos da outra, sem procurar nada, nem respostas, nem pistas, nem explicações. A princesa olhava e admirava a coragem da fada, as linhas no rosto da fada, a pureza e a verdade na fada. A fada, por sua vez, contemplava a resignação e a força da princesa, o conflito da princesa, a intensidade e os olhos castanhos da princesa.

Não saberiam precisar quanto tempo deixaram-se ficar estendidas ali no capim, mas estar lá era libertador. Daqueles risos em diante escolheriam a estrada e os novos planos. Talvez se separassem e viajassem para terras distantes, talvez casassem com camponeses de E.V.A, talvez virassem assalariadas, qualquer rotina seria sempre possível, mas ali naquela grama, eram apenas as duas e isso era muito, era possibilidade, era amor.

O dragão não apareceu, o príncipe de laminado não veio, a princesa nunca foi perfeita e a fada madrinha não foi embora. Não se sabe se viveram juntas para sempre, mas foram felizes como raros sabem ser. Na história daquelas duas não havia espaço para Era uma vez. Todos os inícios começavam diferente, Eram muitas vezes.

3 comentários:

  1. Gostei pra caramba do conto, Andréia. Lembrei dos contos da Moça Tecelã de Marina Colasanti! Bjs, Joselma

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  2. Linda história Andréia! Pra mim a fada tem um nome: Alice!

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  3. Que bom que gostou, Vanessa! Mas não tem esse nome, não. Não mesmo. :)

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