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4 de julho de 2013

Entrevista - Escritores em Rio Grande




Conforme o combinado, a série de postagens pelo aniversário de lançamento do De solas e asas começa aqui, com a entrevista que fiz com os quatro escritores que também publicaram seus livros de estreia em 2012, gente que, como eu, voa longe de casa com a palavra. O material foi organizado para servir de base a um ensaio a respeito do tema.

ENTREVISTA
Escritores em Rio Grande
por Andréia Pires





Rody CáceresVolmar Camargo Junior, Paulo Olmedo e Daniela Delias, escritores que vivem em Rio Grande, contam de sua prática literária e de sua percepção sobre a influência da cidade em sua produção criativa. Os quatro publicaram seus livros de estréia em 2012. Por ordem de lançamento: Para onde foram os heróis?,de Rody Cáceres; O Balcão das Artes Impuras, de Volmar Camargo Junior; A razão do absurdo, de Paulo Olmedo e Boneca russa em casa de silêncios, de Daniela Delias, que tornaram o ano tão profícuo em termos literários.

1) Como se dá o teu processo criativo? Existe uma rotina de escrita criativa que sistematize a tua prática ou a invenção acontece de maneira espontânea e aleatória? Como colocas, enfim, a tua produção em ordem?

RODY CÁCERES: Há uma ordem em minha produção, porém o processo criativo é pura desordem. Ideias aparecem em momentos e locais inoportunos (trabalho, banheiro, ônibus), como relâmpagos de inventividade. Por isso levo sempre o popular caderninho, ou perco tudo em poucos minutos. Grande parte dessas ideias de nada serve, pois parecem inviáveis na hora de por no papel. Faço as anotações, então, para não sofrer com a perda de uma ideia.

Com o passar dos anos aprendi a me dedicar apenas a um projeto, deixando o restante para outras temporadas. Escrever muitas coisas ao mesmo tempo eleva minha ansiedade. E quando os longos projetos me cansam, escrevo algumas crônicas, a fim de não ficar muito tempo sem escrever. Os poemas, no meio disso tudo, servem para externalizar emoções reprimidas, infelizmente. Meu primeiro opúsculo é um mar de lodo sentimental, fato que me faz refletir em demasia antes de postar algum texto em meu blog ou publicar algum livro.

Hoje, produzo um romance comercial, que toma a maior parte do meu tempo de escrita. E é bem difícil escrever com foco no mercado. O estilo não pode ultrapassar os limites, a linguagem também não. Emulo um escritor. Faço isso pela experiência e pela possibilidade de me tornar um autor popular. É provável que nunca mais consiga escrever algo comercial, pois é muito cansativo e pouco divertido.

VOLMAR CAMARGO JUNIOR: Deveria haver uma rotina, mas não há. Não acredito muito em inspiração, mas não há termo que caiba: eu realmente só escrevo quando calha, quando sinto que “vai sair um poema”. Sou caótico, sim. Há períodos mais ordeiros, mas não consigo simplesmente sentar para escrever.

PAULO OLMEDO: Meu processo criativo é um tanto caótico. Parto sempre de uma instigação ou de algum fato que me inquieta. Às vezes fico elaborando caminhos, soluções, antes mesmo de sentar e escrever, o que faz com que algumas produções se tornem mais demoradas, exigindo um tempo maior de maturação. Desta forma, acabo não tendo uma sistemática para minha produção, até gostaria, mas, infelizmente, acabo me aborrecendo quando tento escrever como obrigação ou exercício. Com isto, ordem é algo não muito comum.

DANIELA DELIAS: O meu processo criativo começa geralmente de uma inquietação, de um desejo. Esse desejo, na maior parte das vezes, associa-se a uma palavra ou frase, mas tenho a impressão de que a palavra seria uma espécie de elaboração secundária de algo que inicialmente não tem nome: uma sensação, sentimento, uma reação às coisas de dentro (tenho a impressão de que, mesmo considerandoestímulos externos, o poema só acontece porque se liga ao desejo, ao que está dentro). Eu não chamaria a isso, necessariamente, de inspiração. Para mim, dificilmente um poema surge de forma livre, espontânea, ou como uma psicografia (risos). Há uma espécie de mergulho inicial, e ele só acontece quando consigo vir à superfície para respirar e pensar sobre o conteúdo. E, uma vez iniciado o processo, há um trabalho posterior de lapidação, de cuidado com a palavra. A “inquietação” pode durar vários dias e se transformar (ou não) em versos. De certa forma, reconheço uma rotina na minha criação. Eu preciso estar só e em contato com outras leituras, e normalmente escrevo durante a madrugada, sem os sons do dia. Ainda não trabalhei com uma temática prévia ou com a ideia de textos que podem compor um conjunto. O que escrevo publico inicialmente em meu blog, sem pensar necessariamente que outras publicações o poema poderá ter. Depois de publicados no blog, alguns poemas foram publicados em livro, na Agenda da Tribo e também em revistas literárias muito interessantes, como a Germina, a Mallarmargense a Diversos Afins, o que considerei uma consequência legal para uma escrita que nasce sem esse objetivo.

2) Poesia, prosa, ambas ou além. A que gênero literário te dedicas e por quê?

RC: Dedico-me a prosa. Conto, crônica e romance. Mas gosto mesmo é de poesia. Porém, minha dedicação a este gênero é mínima, pois os leitores são poucos. Prefiro ser lido a ser poeta.

VCJ: Dedico-me à poesia, sem dúvida. É a minha linguagem expressiva – não sei fazer de outro jeito, ainda que tente. Prosa eu me arrisco só em atividades como as das oficinas, porque tenho um prazo estabelecido, um tema dado, algo assim. Não me arrisco muito na prosa, não. Tenho um romance, que não me deixa... estou-o arrastando há anos.

PO: Prosa. Quando mais novo, experimentava outros estilos e cheguei a cometer (sim, este é o verbo correto) algumas poesias. Hoje nem me arrisco mais, prefiro o conto, por sua brevidade e possibilidade de variação temática mesmo que inserido em um todo.

DD: Eu tenho me dedicado à poesia. Em 2012 escrevi dois textos que começaram com o formato “poesia” e acabaram apresentados como prosa porque parecia que o ritmo da escrita pedia que fosse assim (como se o texto não pudesse ter as pausas que de alguma forma imponho aos versos). No final das contas, eu diria que ficou uma pequena prosa poética (pode-se chamar assim?). A minha dedicação à poesia talvez se explique inicialmente pela forma como me dedico à leitura de poesia. Eu me sinto absolutamente ligada à poesia, à leitura diária de diversos autores e ao desejo de sempre descobrir novos poetas e escritores. Às vezes, no momento inicial da escrita, penso no tanto que gostaria de escrever um texto que fluísse como prosa, mas dificilmente acontece.

3) Residir em Rio Grande influencia a tua escrita? De que forma?

RC: Difícil responder. Talvez a seja “não” a melhor resposta. Mas vendo meus cenários e o tom de alguns textos, não posso dizer que Rio Grande não está lá. Porém, não há intenção de colocar a cidade em minha literatura. Somente os amigos literatos, estes sim já estiveram em minhas estórias. Bem, é impossível residir por trinta e um anos em uma cidade e não colocá-la em minhas produções. Mas não é minha intenção que ela apareça. São meus limites como ficcionista que fazem de Rio Grande o único lugar possível para meus personagens.

VCJ: Meus poemas são muito projetados no ambiente, nas coisas que vejo e nas situações que vivencio. Não é uma influência estética. Acho que não consigo dizer objetivamente, ou observar no que escrevo, a presença da cidade. Certo é que seriam outros os poemas se vivesse noutro lugar. Por causa das vivências, não do ambiente.

PO: Acredito que sim, pois minha escrita é muita influenciada pelas circunstâncias que vivo, os tipos que reconheço. Viver à beira mar e onde o frio é mais comum também acredito ser responsável por formar uma identidade. Por mais universal que tento ser, às vezes, minha vila se sobressai.

DD: Sim. Eu nasci em Pelotas e resido em Rio Grande há cinco anos. Eu entendo que muitas coisas aproximam as duas cidades: a presença do frio, das chuvas, da umidade, e, sobretudo, os dias cinzentos. Esse tanto de águas que circundam a cidade parece estar presente na minha poesia. Da minha casa, nas noites mais silenciosas, ouço os sons do mar. Com frequência observo a presença da Lagoa e do Oceano nas coisas que escrevo, como aqui:

A casa

há uma orquídea em minha porta
móveis que arrasto em dias de chuva
céus que desabam entre tenras paredes
porque são largas, são largas as fissuras

você entrou e não viu o mar, ouviu
e dissemos: é bruto o amor
corta, arranha, dilacera

coisas e palavras
cobrem de farpas e flores
um mesmo chão

mas você não viu o mar, ouviu
foi quando pus os meus pés sobre os seus
e dançamos à margem do dia

6 comentários:

  1. Muito bom o conteúdo das entrevistas (prefiro as alheias, é claro), mas o que mais me chamou a atenção foram algumas similaridades, alguns conceitos que partilhamos. Uma sintonia bacana.

    Valeu pela oportunidade, Andréia! :)

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  2. Fiquei aqui pensando no "meu caso", tentando comparar com os quatro e, como o Paulo falou, legal em ver que há sintonia em alguns pontos.

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  3. Eu conversei com os quatro porque estava pensando em um dos pontos em comum que temos, para mim o mais concreto: a publicação dos primeiros livros no ano passado. Mas gostaria de saber o que pensam todos os escritores que vivem aqui na cidade, sabes, Pedro? Eu acho que teríamos um bom panorama sobre nossa prática. Mas isso é trabalho para muuuuuito tempo. :)

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  4. O Paulo disse tudo: a sintonia é muito bacana! Mas, mais do que isso, a ideia desse trabalho é muito interessante. Seria o maior barato ter esse panorama sobre todos os escritores aqui da cidade. Valeu, Andréia. Grata pela oportunidade de compartilhar e conhecer um pouco mais sobre o processo criativo de escritores que admiro muito.

    Beijão!

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  5. Valeu, Andréia! Me senti escritor.

    P.S.: O caos reina!

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  6. Ótima(s) entrevista(s).

    Obrigado, Deia.

    As palavras da Daniela Delias me deixam louco pra conhecer Rio Grande!

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