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11 de abril de 2013

Anotações sobre viagem

As pessoas que conheço adoram viagens. Meus colegas do trabalho riscam as semanas no calendário e contam regressivamente até chegar no primeiro dos 20 dias que vão passar no Nordeste, ou em Buenos Aires, ou em Madrid, ou ali em Santa Catarina, com direito a estada em Camboriú e uma passadinha no Beto Carreiro, claro, a nossa modesta Disney. E quando retornam do tour, pessoas que viajam jamais dispensam a chance de relatar as aventuras longe de casa. Amigo que é amigo tem obrigação de ver as 869 fotos digitais, 422 fotos do celular, e as 30 e muitas horas de filmagem daquele passeio lindo de jipe pelas dunas do balneário x, e: ficar morrendo de vontade de viver tudo aquilo também. Faz parte do ritual.

Pois eu detesto viajar. Detesto. Depois de chegar ao destino é provável que eu até aproveite e me divirta, mas só de pensar em preparar a viagem, viver a viagem e contar a viagem já me agonia. Compro passagem como quem dá seu cão filhote para adoção. Arrumo malas com o coração esmagado e é sempre um parto decidir que roupas vão e quais ficam. Não que eu tenha apego por elas, não tenho. No fundo, se todas as peças formassem um corpo fofo e fossem em meu lugar eu não me importaria. Não sei o que me dá. Confesso que olho mapas do Peru, da Austrália, do Uruguai e até me imagino com os pés em solo estrangeiro, mas em segundos aquele nó na garganta me recorda que viagens não são para o meu bico. Dia desses quase toquei o que me assombra nos trânsitos. Li sobre migrar ou ouvi em conversa de elevador, não tenho certeza, que a volta não existe. Quem parte pode até tentar o regresso, pode plantar-se na mesmíssima terra de onde saiu, mas jamais será igual, como foi.

Cravar as unhas na rotina é um remédio para o desequilíbrio, um conforto, um alento. E uma covardia sem medidas, eu sei. Assim como a partida e o regresso são vontades, a permanência também o é, mas nenhum desses rumos garante nada. Muito menos que não se vá sofrer. A lógica me diz que quem mais amo pode sumir mesmo que eu esteja ali do ladinho, cheirando o cangote da criatura. E qual é a neura, então? Sou eu. Longe de quem me ama pode ser que eu me escafeda. Que eu me transforme tanto e a tal ponto que volte para casa um arremedo de mim, um inseto resistente a inseticida, ou, no outro extremo, um sujeito lindo, louro e esbelto, forte feito papel de seda. Pode ser que eu não volte mais, que eu me afeiçoe às estradas e siga em frente, um pouco andando outro pouco correndo.

Estou sentado no saguão do hotel, arrependido de ter vindo, óbvio. Vasculhei tomadas à procura de uma em que o plugue do computador conectasse e eu pudesse saber notícias de quem deixei. Faltou um adaptador. Pensando bem, acho que essa é a minha lacuna. A mim sempre me faltou um adaptador. Ouvi sotaques dos mais diversos. Não falei com ninguém. Mal tenho bateria para insistir no wi-fi. E já entendi que o melhor a fazer é tomar um banho e encarar as cobertas que em nada se parecem com as minhas. Não queria estar neste lugar. Não sei para onde deveria ir. E lembrar que é impossível retornar está acabando comigo.

3 comentários:

  1. Ô, Déia...meio feio dizer isso, mas terminei de ler e disse um tremendo "porra, olha essa guria!". Cara, bom demais te ler.

    Beijo

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  2. Concordo com uma parte do teu texto, depois de um tempo fora perdemos a referência do "meu" lugar. Ainda ando a procura do meu, são tanto e ao mesmo tempo nenhum!
    Espero que o teu texto seja ficticio :)

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  3. O adaptador, o adaptador... beijos, sua linda!

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