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18 de janeiro de 2013

O tempo é uma pulga

Minha cicatrização é um fiasco. Talvez o processo de fechamento dos meus machucados seja arrastado assim por causa da cor da minha pele, pelo escuro dela, sei lá. Comparo-o às curas dos mais próximos e é evidente que as marcas deles desaparecem antes das minhas. Não desdenho do tanto de melanina que me tocou ter, acho um charme o dom para o bronzeado, mas das marcas eu reclamo. Há três meses tenho a perna direita salpicada de pontos marrom-arroxeados. Não importa o cuidado que eu dedique aos bandidos, a quantidade de protetor solar que eu espalhe na região, eles teimam em ficar. Ao longo da minha perna curtinha.

Dessa vez, foi uma pulga quem começou isso tudo. Acho cães e gatos uns amores, mas não toco, não costumo passar perto e nem gosto da ideia de tê-los dentro de casa, sobre o sofá ou em cima da cama. Não faço ideia de como veio parar nas minhas calças se mantenho distância de seus portadores, mas o caso é que essa pulga aportou em mim na rodoviária da capital e viajou de ônibus comigo até em casa, deixando um rastro desgraçado de coceira.

No assento da janela do coletivo, sem muito recurso de movimentos para poder vasculhar o corpo atrás do inseto que já dava mostras do estrago que fazia, vezenquando esfregava o jeans na altura da canela, batia com a caneta onde sentia as mordidas, e assim improvisei durante quase cinco horas de estrada. Queria me livrar da pulga a qualquer custo. Ao chegar, isolei a roupa toda dentro da máquina de lavar. Nem sinal do inseto. Só coceira. E coceira coça. Coça. Ai, como coça. E quanto mais se coça, mais coceira dá e mais vontade de coçar se tem. É inevitável futucar as bolotas que uma minúscula pulga faz na superfície da pele, e em seguida, o relevo avermelhado vira ferida, com sangue, casca e aspecto desagradável. E nem por isso a coceira cessa.

E daí? Depois de meses xingando uma pulga que, de fato, não vi, fiquei pensando, e sabes que o pensamento é uma maluquice sem fim, que uma ideia vai colando em outra e, parece, é assim que nascem as grandes teorias e também toda a babaquice de discurso que nos atravanca a vida, mas enfim, fiquei pensando se uma pulga não é um exemplo concreto do tempo. Afinal, a pulga passa. E a gente até nem vê que cara o bicho tem, mas sabe que deixa marca que demora para sair e algum aprendizado mais ou menos dolorido.

Nessa direção, não é lógico que a memória seja o equivalente à coceira? A gente bem podia deixar quieta, evitar botar a mão, não cravar as unhas nem puxar a casquinha, mas quem resiste a uma coçada com vontade, auxiliada por escovas de cabelo ou tampinhas de garrafa, por exemplo? Para fechar o raciocínio, o passado tem que ser o resultado da mordida da pulga: a bolota que vira ferida que vira cicatriz que custa a sarar. Aquela sombra na pele que parece ter ido embora de vez, mas ainda está lá, marrom-arroxeada, insistente, coçando para sempre.

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