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6 de dezembro de 2012

Gracias a la vida

(Se tudo correr bem, esse texto vai ser publicado no Diário Popular no dia 10 de dezembro, quando fará mais sentido...)

Nenhum furo extra na orelha, nem piercing no umbigo, nem desenho ou palavra. A superfície do meu corpo é de pele, pelos e algumas cicatrizes da infância, nada mais. Admiro quem se joga na body modification e se enfeita inteiro, seja para se contentar, seja para contestar. Já quis escrever pelos punhos duas palavrinhas que vezenquando namoro: luz e leveza, mas cadê coragem? Se vai doer, pode apostar que me recuso e me recolho ao meu jeito quadrado de ser, e trato de transformar a causa em alternativa: uma fotografia na parede do quarto, uma camiseta customizada, um pingente dourado, uma conversa para gastar o desejo, a adoção de um gesto que valha pelo símbolo. Costumo usar o argumento de que um corpo muito nu também dá seus recados.

Uma amiga grafou no antebraço “gracias a la vida”. Desde que reparei, sempre que penso em tatuagem, além da imagem dela me ocorre a da Mercedes Sosa ainda jovem e me sinto absolutamente tatuada. Sei que dentro dessa frase moram mulheres e homens e lutas e violões dedilhados que vieram bem antes de mim. Não vivi Violeta Parra e pouco ouvi de La Negra, mas essa canção me invade toda vez, como reza forte. E eu me deixo levar, sabe? Feito crente no templo de oração, canto bem alto, danço, batuco no tampo da mesa, passo a mão no meu cabelo exatamente como fazia a Mercedes, enquanto enumero o tanto de bem que essa vida já me deu.

Papo de final de ano, deves estar pensando. É e não é. Os Maias que me desculpem, mas só vou me preocupar com a validade das previsões do fim do mundo amanhã ou depois. Porque hoje é segunda-feira e é o meu aniversário. Estou para ver gente que curta tanto quanto eu contar um ano a mais. Gosto da contagem regressiva, do almoço em família, de happy hour com os amigos e de festinha com balões, mas sem hora para acabar. Se deixarem, emendo as comemorações com o Réveillon e vivo um dezembro eterno. Os chegados apostam que essa euforia vá passar, mas aumenta ano a ano, e tudo bem, vão continuar me suportando assim, exigindo parabéns a você e o é-big-é-big desde o primeiro dia do mês.

Gracias a la vida que me ha dado tanto: olhos para perceber o negro, o branco e o céu estrelado; ouvidos para gravar a noite, o dia, as vozes ternas; som e alfabeto, especialmente este, com que declaro e penso e vou; pés para a marcha; coração em flor; riso e pranto suficientes para distinguir sorte de quebranto. Parece que estou cada vez mais perto de agarrar meu próprio canto. A gratidão que carrego ocupa o corpo que eu tenho e mais. Espero que contamine, que alimente, que convença e que seja firme a ponto de me fazer recordar nos dias difíceis que sempre vem. Desta vez não quis inventar história ou dispor palavra em arranjo novo. Hoje minha urgência é outra: de recuperar gritos antigos, de celebrar, de ser feliz. Meu parafraseado não engana, em dias como este, preciso que as vozes dos outros me contem. As vezes são as que mais bem dizem de mim. Gracias.    


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