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22 de setembro de 2012

Experimentos em miniconto

Experimentando o desafio do curso de escrita criativa, registro as minhas quatro tentativas. A ideia era escrever textos de até 300 palavras e textos com menos de 50 letras. Doeu um pouco, mas não foi tão mau assim o que saiu. Variações do mesmo título abaixo:

Aventura (até 50 letras)

1
No auge do cinza, pintou as unhas de azul pavão e foi à missa.
Tão no poço, pintou as unhas de azul pavão e foi à missa.

2
Eleições. Repórter publica seu dia de trabalho no jornal.

3
Bebeu os recomendados 2 litros d’água e foi ao supermercado.

4
Bolsa aberta. O namorado acha a cartela do mês. 16 lapsos?

Aventura (até 300 palavras)

1
Não foi como Bernardo havia imaginado. Escolher o almoço de domingo para sair do armário, dar a notícia à família inteira de uma vez só, justo no dia do aniversário do avô, não foi uma boa ideia, reconheceu. Passou o resto da tarde afundado no sofá de corino lilás, assumido e arrasado. Não tinha coragem para se matar. No auge do cinza, pintou as unhas de azul pavão e foi à missa.



O trabalho triplica no período eleitoral em qualquer redação. Dois longos meses de cuidado redobrado com o foco das matérias sobre os candidatos da situação e da oposição e os fatos referentes ao pleito. Tudo sob controle, não fosse o patrão crer em dois absurdos, especialmente: que viviam ainda em uma cidade feito a Ilhéus de Jorge Amado e que o meio de comunicação que gere deve reverência ao candidato de sua preleção. Censura velada, sutil, firme e escrachada. Os três repórteres do jornal experimentaram formas diversas de assédio moral na mão do chefe. Calados. O limite do Roberto esgotou lá pela última semana antes de irem todos às urnas. Elaborou e deu conta de uma pauta simples e gasta: relatar a rotina de um trabalhador. E foi além. O jornal de domingo, o da eleição, publicou o último dia de trabalho e de abuso da equipe de jornalistas. Roberto e seus colegas foram capa.


Não bastasse a obesidade aguda, Vanessa precisava se punir. Tinha repulsa à gorda que via no espelho, mas não resistia ao pacote de bolachas recheadas sabor morango com chantili. Não que gostasse da culpa que bate um quilo de macarrão depois, não mesmo. É que esse é um sentimento tão poderoso e sorrateiro que na maioria das ocasiões atua subconscientemente. Então, a Vanessa juntou forças lá do meio das celulites e foi ao nutricionista. Entrou imediatamente em uma dieta a perder de vista. O tratamento funcionava. Já nas primeiras semanas voltou a caber nas calças 42, o cabelo estava mais sedoso, a pele visivelmente mais brilhante. Nem sabia que tinha aquela esperança, pensava. Sentia-se curando da gordura. Da gordura. Em dia de compras, Vanessa bebia de uma vez só os dois litros de água recomendados pelo profissional da saúde e ia ao supermercado.


Festa de aborrecer, aquela. Preferiam a sequência cinema, rodízio de pizzas e motel, mas deveriam permanecer pelo menos umas duas horas mais. Estavam juntos tempo insuficiente para mandar às favas o protocolo familiar. Ela avisa que vai ao banheiro, fazer xixi, retocar o make, matar tempo. Leva somente o batom e deixa a bolsa aberta, dando sopa. O namorado, bom de conta, encontra a cartela do anticoncepcional pela metade. 16 dias de esquecimento?

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