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16 de agosto de 2012

Margarida


Solitária e cinquentona, Margarida andava tão tristonha que achava que ia morrer. Foi a vida, sabe? A vida foi deixando a Marga amarga, com sua porção cotidiana de empecilhos, de filas, de saldo insuficiente no banco, de falta de tempo, de raro amor, de pouco sonho. Ela sempre foi devagar, vivendo de mansinho, acreditando que um passo por vez a levaria não ao sucesso, mas à paz de espírito. O caso é que depois de uma pedra não tinha um jardim florido, como pensava. Normalmente tinha outra pedra, mais dura e larga e alta do que a anterior.

Ela não desejava muito. Bastava ser plena no trabalho e ter o coração satisfeito. Isso trocado em miúdos significa que ela queria ser lembrada com afeto pelos alunos do Marinho, colégio onde lecionou desde a juventude, e arrumar um namorado que a tratasse bem e elogiasse sinceramente suas curvas e seu senso de humor. Era para ser simples, mas a gente entende que para adiante da vontade da Margarida existe todo o sistema – falido – da escola pública e o tempo que não espera por ninguém. O azar dela, no fim das contas, foi ser ruim de matemática. No cálculo que fez vinha primeiro a carreira, depois se somava o casamento e disso resultaria uma casinha verde com piso de granito e cerca pintada de verniz, dois filhotes gordinhos, uma velhice tranquila. A ordem dos fatores alterou de tal forma o produto que parecia ter dado tudo errado.

Cansada de sacudir sineta em frente à prefeitura, farta de engrossar o caldo das mobilizações de categorias que brigam eternamente por qualidade na educação, exausta da batalha dentro de salas de aula por migalhas de atenção e pingos de consideração de estudantes viciados em eletrônicos e cada vez menos interessados em conhecimento, a Marga jogou a toalha. Sabemos que nunca é tarde para virar a mesa, mas ela tinha perdido completamente a fé e não via mais decência na docência. Amassou o mantra de Drummond e jurou esquecer que até agora houve sempre uma maldita pedra no meio do caminho. O tempo bem que poderia ter sido mais legal com ela, os vincos do rosto davam-lhe com folga pelo menos uma década a mais. Um dia, passou a mão nas economias que juntou nos últimos 23 anos e apostou: vou desenvelhecer em Paris!

Ousadia tamanha na biografia da Margarida atravessar o oceano e chegar na Europa sozinha, com uma mala marrom e uma bolsa no ombro. No aeroporto, pronta para despachar suas coisas, acontece o que nem esperava mais. Aguardando o check-in, Margarida é abordada: seu bilhete, por favor? O encantamento é instantâneo, arrebatador e impossível. O voo parte logo, Paris é logo ali, e uma possibilidade de amor vai ficar para trás. Ágil feito tartaruga, Margarida atinou a correr os olhos pelo crachá e guardar o nome: Gilmar Costa. Na volta procuraria esse gentil homem grisalho que a atendeu tão bem e parecia acompanhá-la com o canto dos olhos.

Paris foi uma festa. Museus, teatro, feiras, bibliotecas e lojas, muitas. Retornaria outra, nova dos sapatos à alma, e desesperada por uma aventura amorosa. Por lá, o hype entre as senhoras era a peruca ruiva e a moda inverno 2013 a mil. Margarida flanou por salões de beleza e liquidações e torrou até os centavos em botas, casacos e toucas. Um mês depois desembarcou, fios ruivos descabelados, maquiagem borrada e com excesso de bagagem. Recordava o nome do atendente, mas não estava certa se era Costa, Cozza ou Correia. Buscou na carteira a nota da passagem de ida, poderia constar ali alguma referência. Se não houvesse, pediria informações no balcão sobre o funcionário da empresa aérea. Mas havia. Não só o sobrenome do homem como um recado escrito de caneta azul, com a certeza Eu te conheço e um número de telefone. Suspirou e falou para dentro, a Margarida: também conheço o Gilmar Costa, o namorado que eu tenho esperado. E fez a ligação.

* Essa história é um exercício do curso de Escrita Criativa que tenho feito. A proposta é transformar uma canção em conto. Escolhi a música "Margarida, a tartaruga", do disco Par ou Ímpar de Kleiton e Kledir, que pode ser ouvida aqui.

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