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29 de agosto de 2012

Dos círculos

Foi como quando entrei no mar. Naquele agosto cinza e imprevisível, ardeu o corpo e revirou o que estava posto, ainda que em desordem. Havia coisas desarrumadas, mas havia algo lá para ser visto, medido, julgado, desaprovado e expurgado, e logo, por intermináveis segundos, tudo em mim parou no marco zero, não andou para adiante nem para trás nem para os lados. Era anestesia da vida, de uma vida que vinha atropelando a si mesma, descendo ladeira abaixo. Nos últimos dias parece que voltei para aquela fenda entre mar e mundo e meu. Mas, e agora? Que há apenas espaço vazio, em preto ou em branco, a cor nem tem tanto sentido ou efeito. Que faço com essa cena aberta, suspensa, congelada, com esse espanto que não chegou a ser, com a angústia que desistiu de explodir, com a sensação do nada? Naquele ponto havia um vapor azul em cima da água, de braços abertos estendidos de uma ponta a outra do horizonte que cabia nos meus olhos, e acima um riso firme e estridente, que me mandava sentir, guardar a sensação e seguir o seco, sair do mar e botar os pés na areia. Era para ser aprendizado e entendimento. Acho que na ocasião até chegou a ser, mesmo, compreensão. Só que, de alguma maneira, quando percebi foi como estar de novo dentro da vertigem. Foi como quando entrei no mar.

13 de junho de 2009. 
(Mas podia ser hoje)

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