Páginas

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Sobre gestar

Não tem nada a ver com bebês de carne, osso, sangue e cordão umbilical. Não ainda, não de mim. Na verdade, quando não posto aqui as historinhas que vão tomando forma em mais ou menos 40 linhas para a colaboração semanal do Diário Popular ou alguma novidade sobre o livro, escrevo para apreender alguma ideia, alguma impressão, alguma sensação que me nasce tão forte que dá pena e medo de deixar passar. O caso é que comigo tem sido assim: de repente se forma uma cena, um pensamento com início-meio-fim e se bobear até com cor. Normalmente os textos saem completos e eu os retomo para conferir detalhes ortográficos e a quantidade de caracteres. Junto com esses contos que eu me comprometi criar periodicamente, percebi que tem um outro enredo mais longo, mais consistente e denso se formando, sozinho, durante o banho, enquanto cozinho, no momento em que ajusto o despertador antes de dormir. É como se já existisse em algum lugar e minha tarefa fosse apenas dar vazão, passagem, voz. Vou dar. Me sinto no dever de. E ao mesmo tempo tenho uma certa agitação, uma agonia misturada a um medo do que virá, o frio na barriga de quando começamos um emprego novo, a euforia nervosa da formatura, um segredo. Será que as grávidas sentem semelhante? Será que é assim estar na condição de quem pode dar vida? Não trato da comparação óbvia e batida entre livros e filhos, mas do sentido do gestar e, por consequência, do sentido do matar. Se eu me calar, se for ver novela, se for tomar chimarrão com os amigos ou comer bergamotas no sol vou esquecer essa gente que me brota, com conflitos, memórias, defeitos e grandezas. Essas observações vão desse jeito mesmo para os ares, num parágrafo só, sem pausa para respirar, sem organização e encadeamento de ideias, como o meu pensar costuma ser. Sem medo do que os outros vão dizer, sem pretensão. Não passa de um registro, um lembrete, um post it amarelinho na tela do computador. Preciso de café com pão para estimular as primeiras contrações. Vou precisar de silêncio para entrar em trabalho de parto. E isso é o máximo que posso chegar da maternidade por enquanto.

Nenhum comentário:

Postar um comentário