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18 de julho de 2012

Lilás era o tempo

Era um barco. Não, não era. Uma canoa.. Um caíco, como dizia meu avô, e vermelho. Cheio de camarões e peixes magros. E no fundo do último banco feito de tábua fina, o homem. O homem e seus dentes amarelecidos do tempo, e seus cabelos embranquecidos do tempo, e suas carnes molengas do tempo, e seus dedos enrugados do tempo, e seu chapéu russo do tempo, e sua saudade fininha de um tempo. Sempre o tempo. E um homem sozinho com idéias-peixe e detalhes-camarões no fundo de uma embarcação. Fingindo que navega, que assobia, que pesca, e que se importa, ou não se importa. Sobre si um lilás, sob si um lilás, dentro de si, também o lilás. O que penso que penso e que imagino que digo não passa do sonoro silêncio enchido de ar.

27 de abril de 2007.

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