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27 de junho de 2012

Tu

Não entendes essa minha vontade
De morder teu lábio
De encostar a bochecha na tua
E sentir tua barba mal feita arranhando
Não acreditas quando digo
Que conheço bem a tua mão
E há dias em que derreteria
Se de leve tocasses com ela minha barriga
Eu não pedi, mas desejei um beijo na chuva
Na noite em que nos abrigamos sob a marquise
E nem lembraste de, delicadamente, retirar meus óculos
Tu ris de mim com o cantinho da boca
Quando resmungo desconfiada
Eu não te disse, mas sentir tua falta dói
Dói como um tombo do alto da escada
No dia em que fores embora de mim
Vou desejar a chuva sobre o nosso abrigo para te beijar diferente
Se meus olhos tornarem-se turvos
Eu mesma, delicadamente, irei retirar meus óculos
Tu irás limpar as lentes na tua camiseta, como sempre
Vais lembrar de colocá-los no meu rosto
E olhar para mim como uma primeira vez
Andaremos sozinhos em qualquer direção
Eu ouvirei, e tu também
Uma mesma melodia triste do fim de chuva
Enquanto deixamos nossos pedaços pelo caminho
Pedaços que ninguém recolherá

*Poema publicado em Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos – 8º volume, em 2004.

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