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segunda-feira, 20 de junho de 2016

Oficina de escrita criativa #cempalavrasUFPel

A convite da professora Fabiane Resende, na sexta-feira, 10 de junho, estive junto com a Suellen Rubira, escritora do Invitro, em duas turmas dos cursos de Letras da Universidade Federal de Pelotas. A missão era propor oficina de escrita criativa aos grupos, contar do Invitro e suas ações, e conversar sobre as possibilidades da escrita criativa na escola e na prática docente.

Foi um dos dias mais frios da minha vida, sem dúvida. Mal conseguia me mexer dentro das camadas e camadas de roupa amarradas pelo casaco grosso por cima. E foi um dos dias de oficina mais interessantes, também, sem dúvida. Suellen e eu levamos o desafio do Drabble como provocação e deu bem certo. Algumas semanas atrás havíamos trabalhado com o formato em encontros do Invitro, motivados pelo Volmar Camargo Junior. Ocupamos uma sala mini-auditório em que batia um sol muito de dels. Pelas imagens dá para ver todo mundo se fazendo um tanto de lagartixa... 

Combinamos uma hashtag para que os interessados publicassem em redes sociais. Os textos estão sendo coletados para um estudo posterior do Invitro sobre o tema. Aos poucos, narrativas com cem palavras estão chegando não só pela #cempalavrasUFPel, mas pelo e-mail e pela página da Mundo Moinho no Facebook. Toda vez que uma oficina começa sinto frios na barriga, de medo que ninguém se engaje na atividade. Por sorte, sempre saio correspondida de alguma maneira. Tomara que tenha sido bom para o pessoal assim como foi para mim. 







Fotos: Fabiane Resende

>> Alguns dos Drabbles da UFPel

Um dia de festa

Onze horas. Começa o preparo. Precisava vinho, cachaça, cravo, canela, açúcar e uma panela funda. O gato miava. Pedia para sair. Pedia para entrar. Corria. Tudo pedindo atenção. O fogo acesso, e começou a mistura. Cadê as pessoas? Será que eu errei a hora? Deveria ter começado mais tarde... Esfriou. Requentei e tomei. Comecei outro e percebi que faltava ingrediente. Saí comprar no mercadinho. Conversei com o dono. Brinquei com o cachorro que estava na rua. Falei com o lixeiro. Pisquei pro vizinho. Cheguei em casa, e fiz caipira sem limão e sem açúcar. Gelo tinha. Cadê o gato?

Monotonia 

Caminhava pelas ruas movimentadas do centro da capital. Cheiro intenso de gasolina. Buzinas, vozes e passos apressados, porém, o único som que ela ouvia era o de sua mente turbulenta.
Chegando em seu apartamento, nem reparou na bagunça que seu gato, Adam, fizera: urina por toda parte, roupas e papéis pelo chão da sala. Soltou os cabelos, deitou no sofá e só pensava em como sua vida havia tomado aquele rumo tão enfadonho e previsível.
Sabia que a solução não seria facilmente encontrada na tarde ensolarada de uma quarta-feira comum, então permaneceu ali e dormiu pelo resto do dia.

Vozes da praça
Por Cristian Borba da Silveira

E este frio? Os tempos são outros. Me dá um balão? Pipoca? Me dá um beijo? Cinco por um, da melhor qualidade. Vou ficar melhor de noite. Mas é quase meio dia. Onde fica o banco? Naquele banco? A grama tá molhada. O monumento fica ali. Cuidado, olhe para o chão! É dinheiro! Coça a minha mão. Não brigue, cão. A senhora deseja ouvir a Palavra? Tenho em casa. Peço licença, tem uma moeda? Baratíssimo! E pouco trabalho. Se você olhar pra ela de novo, eu corto teu pescoço. Mas os tempos são outros. E esse frio?

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Oficina de Escrita Criativa na semana acadêmica do IFRS - Câmpus Rio Grande

O IFRS - Câmpus Rio Grande sempre me proporciona experiências únicas. Saí, na tarde de sábado, 4, da oficina de escrita criativa com um grupo sensacional de estudantes (só faltou Refrigeração ser representada...) de cursos integrados que toparam trocar uma ideia sobre escrita, literatura e criatividade.
Pela primeira vez volto para casa sem saber o que foi produzido. Vou embora com um encontro marcado para dezembro e um envelope lacrado. É que escrevemos futuros. E fica tudo entre nós, para logo ali, entre cafés e sucos de laranja.
Prometi não abrir, não violar correspondências, mas, que coisa, esse envelope me botou a curiosidade aos pulos. Vem, dezembro!
Obrigada, Augusta Saraiva, pelo convite. Obrigada, gurizada, pela tarde inspiradora. Obrigada, enfim, IFRS. 

domingo, 22 de maio de 2016

Oficina de escrita criativa na Virada Cultural do #OcupaJM

Galera da ocupação logo depois de aprontar a faixa.
Quinta passada, dia 19, tive a chance de colaborar com a agenda de atividades da Virada Cultural da ocupação do Instituto Estadual de Educação Juvenal Miller, a primeira escola de ensino médio das, até o momento, onze ocupadas pelos alunos em Rio Grande. Fui convidada para fazer uma oficina de escrita criativa bem no início da tarde, depois disso houve ainda oficinas de ilustração com o Alisson Affonso e o Everton Cosme, de rap, de percussão, de turbante e de dj.

A proposta era começar contando da Mundo Moinho e do núcleo literário Invitro e trocar uma ideia sobre escrita criativa, sobre como a escrita criativa pode contribuir com as pessoas, escritores ou não, e suas causas. Destaquei um tipo de texto específico que vem ganhando visibilidade pelas estratégias de que lança mão para ter engajamento e interação do leitor com o sujeito que a produz, a carta aberta. Levei seis exemplos para ler junto e discutir com o pessoal e, em seguida, motivar a escrita de cartas abertas pelos alunos para o remetente que escolhessem.




A coisa toda andou bem legal, com o pessoal atento e participativo, mas mais perto do fechamento houve um pouco de dispersão quando os equipamentos de sonorização chegaram e começaram a montagem. Deixei livre a escrita, o retorno e etc, que minha intenção era levar um desafio sobre posicionamento individual dentro do coletivo e estimular possíveis estratégias de desdobramento do movimento e de troca de informação pelas redes sociais. Convidei o pessoal a postar suas cartas marcando com a hashtag #OcupaJM, que está sendo usada para divulgar as ações dos estudantes. Alguns dos meus amigos aderiram e têm enviado cartas abertas aos estudantes, em sinal de apoio e de vínculo com o mundo que segue do lado de fora da escola. Coisa corajosa e grandiosa de se ver nesses tempos tão turbulentos por que temos passado, na esfera política estadual e federal.

Se a isca foi mordida pelos alunos secundaristas, se deu certo, não sei. Mas saí de lá com pelo menos uma carta comovente em mãos e uma história muito interessante para compartilhar: havia entre nós uma estudante do sétimo ano da escola municipal Helena Small, que foi até lá conhecer a ocupação e tentar entender, de perto, do que se tratava, como os estudantes se organizavam e o porquê. Ela mais que topou o desafio, se jogou nas linhas pautadas, brincou com o poder que tinha nas próprias mãos e deu um baita recado. E é dela a carta que reproduzo a seguir, com autorização da autora:

De: Marcella Farias
Para: Emicida    

Oi, Emicida, tudo bem com você? Bom, eu queria começar te dizendo que eu sou uma grande fã sua, que você é o meu ídolo, que eu admiro muito, tenho enorme respeito, orgulho e muitas vezes inspiração. Seu trabalho, suas músicas, seus clipes, suas divagações, seu humor, sua força, são coisas espetaculares!

Aqui em Rio Grande, que é a cidade onde eu moro, estão acontecendo várias greves, ocupações e protestos; onde estamos lutando pelo direito do professor de ter um salário justo e honesto. Eles estão sendo desvalorizados pelos deputados, humilhados... Ficam roubando dinheiro deles, depois querem parcelar salário para pessoas que valem muito mais que eles. Que merecem um salário maior que o deles, e claro, o respeito.

Para ajudar esses professores, nós alunos, eu falo "nós" porque com certeza existem muitos alunos nessa luta e eu não quero falar só por mim, mas por eles também; estamos nessa luta para mostrar que o professor não está sozinho e que ele é nosso amigo, ele é que já trouxe e ainda vai trazer muitos futuros, podem ser bons ou ruins, até porque quem quer ser uma pessoa boa no futuro se torna, mas outras têm seus embalos, como pode ser o caso desses deputados de merda, que com certeza não chegaram onde chegaram com passe de mágica. Com certeza, eles tiveram um professor para ensiná-los, mas não souberam aproveitar. Essas greves quem estão fazendo são algumas escolas dos Estados. Eu sou de uma escola do município, porém, eu estou junto dessa luta com os alunos de escolas estaduais, até porque todo mundo merece estudar, todo mundo merece aprender, todo mundo merece viver um ensino. Eu não estou participando das ocupações, mas dou todo o meu apoio, e respeito por essa luta e greve.

Hoje em dia estamos vivendo dias difíceis, é Temer, é Dilma, é Cunha, é política, é tentar estudar, é preconceito, como racismo, homofobia, é tudo, vamos se dizer. Mas, eu penso que se continuarmos lutando, nós vamos conseguir, nós vamos vencer. Ainda tem muita coisa para vir, essa vai ser outra luta de várias que estão por vir. Mas como diz a sua música, "levanta e anda", nós literalmente caímos, mas vamos levantar e andar até nossos objetivos; nessa música tem uma parte que você diz: "Irmão, você é o único representante do seu sonho na face da Terra, se isso não fizer você correr, o que vai?". Nossos sonhos, nós estamos correndo, e vamos continuar para conseguir os direitos do cidadão, da vida e da valorização e respeito.

Quero te pedir desculpas por nessa carta falar sobre greves e etc., mas eu queria te informar e talvez ter a realização de um sonho de poder escrever uma carta para você. Se eu conseguisse, eu falaria o quanto você é importante, o quanto é meu sonho conhecê-lo e o quanto eu amo você. Mas, como fã, você já sabe quanta admiração eu tenho kkkk. Então acho que é isso, também quero agradecer por você existir e te dizer que nesse mundo tem e sempre vai ter (tu já podes saber, mas tô dizendo para te afirmar muito mesmo, tipo, muito mesmo) aluno na rua, vai ter aluno protestando e vai ter professor valorizado sim, e que o meu futuro, e o de outros alunos, não está na mão deles [políticos], está em nós mesmos.

Beijão e um abraço bem forte!
Marcella Silveira Farias. 

Marcella, amigos do #OcupaJM e de todas as escolas ocupadas do Rio Grande do Sul e desse bazil imenso: #tamojunto. Fico muito agradecida por ter passado um tempinho aprendendo com vocês.

*fotos por Suzi Barros.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Mu dan ças


Percebi que estou sempre de mudança. Minha ausência aqui não é outra coisa senão meu tempo ocupado com mudanças. Mas eu volto. Volto, sim. Logo que passar a bagunça a limpo, guardar cada coisa em suas caixas, descartar o que não serve mais, eu volto. Volto melhor, mais bem acabada, com meus acertos e erros, com tudo o que tem me feito até aqui.

Até breve. ;)

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Diário de valise - 29/12/2013



Entre o Natal e o Ano Novo passa um século. Parece muito distante a noite da sopa com o peixeiro e a vó Benta, mas faz só seis dias. De lá para cá, já vivi a ceia mais deprimente do mundo com a vó, os meus pais e irmãs ao redor da mesa farta de arroz colorido, peru, saladas, pudim, ambrosia, champanhe e frutas vistosas, na casa que já foi minha e hoje me parece tão estranha e sufocante. Acho que sufocante sempre foi, eu é que relutava em admitir. O combinado era passarmos a ocasião solene na casa da vó, nos empanturrando com os pratos doces e salgados comprados na padaria do Parque, até as bebidas e guardanapos, tudo organizado para não dar trabalho a ninguém, mas o pai nunca cumpre os acordos que fazemos e ao invés de entrar desejando Feliz Natal quando abri a porta foi direto ao ponto, com sua delicadeza peculiar: “pega a tua vó e vem”. Retruquei e me dei mal, como sempre. A festa já estava montada na casa dele, éramos apenas duas – uma menos lúcida do que a outra, votos vencidos, melhor que não criasse caso que não era dia de brigar. 

Tirando a tortura de suportar o pai sendo ele mesmo durante umas quatro horas a fio, permanecer lá não foi tão difícil. Comida natalina é supimpa, as manas são pessoas mais bonitas e interessantes agora que convivemos pouco – ou a saudade que tenho delas deturpa meu poder de avaliação, e a mãe, bem, a mãe continua daquele jeito dela de aceitar de um tudo e não se permitir coisa nenhuma. Depois de amanhã tem outra festinha em família para celebrar a chegada de 2014, e uma parte de mim quer que isso acabe logo para eu poder parar de me conter e de fazer caras e bocas de uma satisfação que não sinto, mas outra parte grita não e não, que quanto mais o tempo passa mais perto fica de a vó Benta morrer, gela meu estômago só de pensar nesse futuro próximo. 

A cabeça da vó vai de mal a pior. Pensei que no dia seguinte à visita do peixeiro ela acordaria perguntando pelo fim que havia levado Ernesto, mas não. Não tocou no assunto e eu deixei rolar, evitei ter essa conversa e fui cuidar da medicação, do banho, da roupa, do sono, do bem-estar dela. Até eu levar a canja, não faz muito. Então eu contei, medindo palavras, que Ernesto morreu há algum tempo, que andou pelo país, mas em seus últimos anos morou nessa cidade no lugar onde fui procurá-lo, viúvo e sem filhos. Queria que ela soubesse como as coisas aconteceram, mas que não sofresse. Mais. E ela me olha bem nos olhos por alguns segundos e diz que eu não devia brincar assim com os sentimentos das pessoas, então eu não sabia que Ernesto havia feito uma visita e até valsa tinham dançado? Expliquei que aquele era Júlio, o peixeiro, sobrinho do Ernesto. Para nada. A vó Benta deu uma risada e passou a cantarolar, ignorando a minha presença e a vontade que eu tinha de realidade, de manter as coisas em ordem. Para quê? Ela agarra como pode o que lhe sobra, seus pedaços de memória, só seus. Seria uma canalhice sem tamanho interferir nessa lógica da vó. E eu até que sou canalha às vezes na vida, mas jamais o seria com ela.